Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FGV TJAM 2013 (nº 6)
Muito além do ridículo (fragmento)
“Certa vez, ante o espanto da opinião pública com a violência de uma rebelião de presos, o memorável jurista Evandro Lins e Silva saiu-se com esta: espantoso, mesmo, é que os detentos enjaulados em condições subumanas não estejam realizando mais motins pelo país afora.
Lins era um humanista por excelência e sempre achou equivocada a política penitenciária. Não havia ironia no que disse. Com mais de 500 mil presos, o sistema atual tem capacidade para receber pouco mais de 300 mil. O que sobra fica amontoado em celas fétidas, sujeito à disseminação de doenças e, o que é pior, a mais violência. Como é possível imaginar que um ser humano se adapte a tais condições?
Do outro lado dos muros das prisões, uma sociedade acuada pela escalada da violência urbana prefere imaginar que lugar de bandido é na cadeia, deixando o Estado à vontade para varrer a sujeira tapete abaixo. Construir presídios e dar tratamento digno ao preso não rendem votos. Punir, sim.
Daí porque se discute tanto um novo Código Penal, como se fossem frouxas as 117 leis penais especiais e os 1.170 crimes tipificados de que dispomos. Inclusive trazendo de volta a ideia da maioridade penal, que na prática significa transformar menino em delinquente e sujeitá-lo à crueldade das prisões. Nada mais autoritário. O que a juventude precisa é de amparo, de oportunidade, de educação, e não de medidas que visem a puni-la.
A sociedade não pode virar as costas ao drama dos presídios”.
(Marcus Vinicius Furtado)
“O que sobra fica amontoado em celas fétidas, sujeito à disseminação de doenças e, o que é pior, a mais violência. Como é possível imaginar que um ser humano se adapte a tais condições?”.
Esse segmento do segundo parágrafo do texto mostra
- Aum questionamento dirigido aos presos do sistema carcerário.
- Bo posicionamento crítico de Evandro Lins e Silva.
- Cuma explicação da “ironia” citada anteriormente.
- Da posição de um jurista apoiada pelo autor do texto.
- Ea visão do autor do texto em face da política penitenciária. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A identificação da voz do autor em um texto é fundamental; ela se manifesta em comentários, análises, e, frequentemente, em perguntas retóricas que expressam sua opinião ou julgamento sobre o tema.
- A) Incorreta: O questionamento não é dirigido aos presos, mas sim à sociedade ou ao leitor, para que reflita sobre a inviabilidade de adaptação a condições desumanas.
- B) Incorreta: Embora Evandro Lins e Silva tenha um posicionamento crítico, o trecho em questão é uma reflexão do próprio autor do texto, que descreve as condições e, em seguida, questiona a possibilidade de adaptação.
- C) Incorreta: O texto afirma explicitamente que "Não havia ironia no que disse" Evandro Lins e Silva. O segmento citado não explica ironia alguma, mas sim expressa um lamento ou indignação.
- D) Incorreta: O trecho é a voz do autor do texto, não a citação ou paráfrase da posição de um jurista. O autor usa a citação de Lins e Silva no início para contextualizar, mas depois desenvolve sua própria argumentação.
- E) Correta: A pergunta retórica "Como é possível imaginar que um ser humano se adapte a tais condições?" é uma forma de o autor expressar sua indignação e sua visão crítica sobre a desumanidade da política penitenciária e as condições dos presídios.
Fonte: FGV TJAM 2013 Oficial de Justiça Avaliador e Leiloeiro (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.