Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FGV TCE-TO 2022 (nº 13)
Texto 2
A nova era do divórcio (fragmento)"'Novelas da Globo aumentam o número de divórcios no Brasil.' Parece fake news de haters, mas não. Trata-se de um dado histórico. A conclusão é de um estudo de 2009, feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A pesquisa fez um cruzamento entre informações de censos das décadas de 1970, 1980 e 1990 e dados sobre a expansão do sinal da Globo no país. Segundo os autores do estudo, o número de mulheres que se separaram aumentou conforme a teledramaturgia da emissora foi chegando a mais cidades.
'A exposição a estilos de vida modernos mostrados na TV, a funções desempenhadas por mulheres emancipadas e a uma crítica aos valores tradicionais mostrou estar associada aos aumentos nas frações de mulheres separadas e divorciadas nas áreas municipais brasileiras', diz a pesquisa. [...]
O que os estudiosos do BID não poderiam prever é o quanto os divórcios aumentariam no Brasil do século 21, por um motivo ainda mais insuspeito: a disseminação de um vírus.
Segundo o Colégio Notarial do Brasil, que congrega os tabeliães de notas e protestos, no primeiro ano da pandemia, em 2020, houve um aumento de 15% no número de divórcios em comparação com o ano anterior. Em 2021, então, o número de casais que oficializaram a separação bateu recorde: 80.573 divórcios consensuais, o maior da série histórica, que é registrada desde 2007.
[...] Sim, o início desnorteante da pandemia foi o gatilho para um boom de divórcios planeta afora. Motivos para a escalada nas tensões entre casais não faltaram, você sabe: o encarceramento no lar de ambos os cônjuges (condição que se estendeu indefinidamente para quem aderiu ao home office), perrengues financeiros, a necessidade de lidar com as crianças estudando em casa, distúrbios psicológicos (ansiedade, depressão, paranoia…).
[...] A [empresa americana] Legal Templates mostrou que os casados há menos de cinco anos foram os que mais se separaram em 2020: 58%. Aliás, quanto menor o tempo de união oficial, maior o aumento no índice de cada um para o seu lado. Enquanto, em 2019, pré-Covid, apenas 11% dos que se separaram tinham menos de cinco meses sob o mesmo teto, em 2020 essa porcentagem quase dobrou: foi para 20%.
Estudiosos que analisaram esses dados chegaram a uma conclusão que faz sentido: casais que haviam se unido havia pouco tempo são menos calejados para enfrentar o maremoto que atingiu a praia conjugal na onda do vírus. Os parceiros mais longevos já tinham passado por outras crises. Talvez ilesos, talvez feridos. E muitos aprenderam a sair delas juntos.
[...] Nesta nova era do divórcio, vale um alerta: mesmo nas separações mais amigáveis – e até afetuosas –, romper um relacionamento de anos segue sendo tão difícil quanto sempre foi. Os primeiros tempos tendem a ser um período deprimente, de luto mesmo, acordos difíceis e de pisar em ovos. Se você se separou, vale a pena um esforço a mais para manter o bom convívio. Não apenas pelo bem dos filhos – se o casamento produziu crianças. É importante honrar uma história que, em boa parte do tempo, foi partilhada com a pessoa que um dia você amou como se fosse a única."
Disponível em: https://super.abril.com.br/comportamento/a-nova-era-do-divorcio. Acesso em: 24/07/2022
"O que os estudiosos do BID não poderiam prever é o quanto os divórcios aumentariam no Brasil do século 21, por um motivo ainda mais insuspeito: a disseminação de um vírus."
Retirado do texto 2, esse fragmento sugere, implicitamente, que a correlação entre aumento do número de divórcios e expansão do sinal da Rede Globo é insuspeita.
Essa mesma ideia pode ser flagrada na seguinte passagem:
- A"Parece fake news"; (alternativa correta)
- B"Trata-se de um dado histórico";
- C"o número de mulheres que se separaram aumentou";
- D"A exposição a estilos de vida modernos mostrados na TV";
- E"aumentos nas frações de mulheres separadas e divorciadas nas áreas municipais brasileiras".
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O sentido implícito é uma ideia sugerida no texto, mas não dita de forma direta. Para encontrá-lo, precisamos ler nas entrelinhas e entender o que o autor quer comunicar além das palavras explícitas.
- (A) Correta: A expressão "Parece fake news" sugere que a afirmação sobre as novelas da Globo e o aumento de divórcios é, à primeira vista, inacreditável, improvável ou surpreendente. Essa percepção inicial de algo que "parece falso" ou "improvável" é exatamente o que o termo "insuspeita" (no sentido de inesperada, não óbvia) busca transmitir em relação à correlação.
- (B) Incorreta: "Trata-se de um dado histórico" é a confirmação da veracidade da informação, que vem depois da surpresa inicial ("Parece fake news"). Não sugere que a correlação é insuspeita, mas sim que ela é um fato comprovado. A armadilha aqui é que esta frase vem logo após a alternativa correta, mas seu sentido é oposto ao de "insuspeita" no contexto da percepção inicial.
- (C) Incorreta: "o número de mulheres que se separaram aumentou" é uma constatação do estudo, um dado objetivo, e não uma sugestão sobre a natureza surpreendente ou insuspeita da correlação.
- (D) Incorreta: "A exposição a estilos de vida modernos mostrados na TV" é a explicação para o fenômeno, o motivo pelo qual a correlação existe, e não uma expressão da sua natureza insuspeita.
- (E) Incorreta: "aumentos nas frações de mulheres separadas e divorciadas nas áreas municipais brasileiras" é a descrição do resultado do estudo, um fato, e não uma ideia implícita sobre a surpresa ou a improbabilidade da correlação.
Fonte: FGV TCE-TO 2022 Conhecimentos Comuns (TCE-TO - Analista Técnico) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.