Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FGV SEFIN-RO 2018 (nº 6)
Texto I – Há sempre o inesperado
Quem não nasceu de novo por causa de um inesperado?
Iniciei-me no exílio antropológico quando – de agosto a novembro de 1961 – fiz trabalho de campo entre os índios gaviões no sul do Pará. Mas, como os exilados também se comunicam, solicitei a uma respeitável figura do último reduto urbano que visitamos, uma cidadezinha na margem esquerda do rio Tocantins, que cuidasse da correspondência que Júlio César Melatti, meu companheiro de aventura, e eu iríamos receber. Naquele mundo sem internet, telefonemas eram impossíveis e cartas ou pacotes demoravam semanas para ir e vir.
Recebemos uma rala correspondência na aldeia do Cocal. E, quando chegamos à nossa base, no final da pesquisa, descobrimos que nossa correspondência havia sido violada.
Por quê? Ora, por engano, respondeu o responsável, arrolando em seguida o inesperado e ironia que até hoje permeiam a atividade de pesquisa de Brasil. Foi quando soubemos que quem havia se comprometido a cuidar de nossas cartas não acreditava que estávamos “estudando índios”. Na sua mente, éramos bons demais para perdermos tempo com uma atividade tão inútil quanto estúpida. Éramos estrangeiros disfarçados – muito provavelmente americanos – atrás de urânio e outros metais preciosos. Essa plausível hipótese levou o nosso intermediário ao imperativo de “conferir” a correspondência.
Mas agora que os nossos rostos escalavrados pelo ordálio do trabalho de campo provavam como estava errado, ele, pela primeira vez em sua vida, acreditou ter testemunhado dois cientistas em ação.
Há sempre o inesperado.
Roberto da Matta. O GLOBO. Rio de Janeiro, 18/10/2017
“fiz trabalho de campo entre os índios gaviões no sul do Pará”.
As opções a seguir apresentam essa frase reescrita de modos variados. Assinale a opção em que a reescrita dessa frase não está de acordo com a norma padrão ou desrespeita seu sentido original.
- AFiz trabalho de campo, no sul do Pará, entre os índios gaviões.
- BNo sul do Pará, fiz trabalho de campo entre os índios gaviões.
- CEntre os índios gaviões, no sul do Pará, fiz trabalho de campo.
- DUm trabalho de campo foi feito, no sul do Pará, entre os índios gaviões. (alternativa correta)
- ENo sul do Pará, entre os índios gaviões, foi feito por mim um trabalho de campo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Reescrever uma frase significa expressá-la de outra forma, mantendo o mesmo sentido original e respeitando as regras da gramática (norma padrão). Pequenas alterações na ordem das palavras ou na voz verbal são permitidas, desde que não mudem a ideia principal ou a clareza da mensagem.
- A) Incorreta: Esta reescrita apenas altera a ordem dos adjuntos adverbiais ("no sul do Pará" e "entre os índios gaviões"), o que é permitido pela norma padrão e não altera o sentido original.
- B) Incorreta: Assim como na alternativa A, esta opção apenas reorganiza os adjuntos adverbiais, colocando "No sul do Pará" no início da frase. A estrutura e o sentido são preservados.
- C) Incorreta: Novamente, a reordenação dos adjuntos adverbiais ("Entre os índios gaviões" e "no sul do Pará") para o início da frase é gramaticalmente correta e mantém o sentido original.
- (D) Correta: Esta opção transforma a frase da voz ativa ("fiz trabalho de campo" – eu fiz) para a voz passiva ("Um trabalho de campo foi feito"). O problema reside na omissão do agente da passiva. Na frase original, o agente ("eu", implícito na conjugação do verbo "fiz") é claro. Ao dizer "Um trabalho de campo foi feito", sem especificar "por mim", o agente da ação se torna genérico ou desconhecido, alterando sutilmente o sentido original que atribuía a ação diretamente ao narrador. A armadilha da banca aqui é que, embora a voz passiva seja gramaticalmente correta, a ausência do agente explícito ("por mim") faz com que a frase perca a informação crucial de quem realizou a ação, desrespeitando o sentido original de autoria.
- E) Incorreta: Esta opção também está na voz passiva ("foi feito"), mas, ao contrário da alternativa D, ela inclui o agente da passiva ("por mim"). Dessa forma, mesmo na voz passiva, a informação sobre quem realizou a ação é mantida, preservando o sentido original da frase e estando de acordo com a norma padrão.
Fonte: FGV SEFIN-RO 2018 Auditor Fiscal de Tributos Estaduais (Caderno Tipo 2). Reproduzida para fins de estudo.