Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJ-BA 2023 (nº 7)
Texto 1 – O caminho da alimentação saudável
Nova rotulagem da Anvisa é bem-vinda, mas aquém de seu potencial
Carlos Augusto Monteiro
Laís Amaral MaisDesde outubro de 2022, o consumidor brasileiro vem se deparando com mudanças nas embalagens de alimentos nos mercados. Trata-se do novo modelo de rotulagem nutricional determinado pela Anvisa.
O uso do padrão é válido para produtos alimentícios lançados a partir de 9 de outubro; para aqueles já existentes, o prazo para adequação pode ser de um a três anos a partir da mesma data, dependendo da natureza do produto.
O modelo traz novidades importantes. A principal é a inclusão de um ícone de lupa, indicando alto teor de gordura saturada, açúcar adicionado e sódio — cuja ingestão excessiva aumenta o risco de doenças crônicas. Além disso, padroniza o design da tabela nutricional e mostra valores nutricionais do alimento com base em porções de 100 g ou 100 ml, facilitando comparações entre produtos semelhantes de marcas distintas.
A adoção é um avanço. O rótulo de um alimento traz informações que orientam o consumidor sobre os componentes do produto, interferindo na decisão de compra. A escolha da nova rotulagem, no entanto, poderia — e deveria — ter ido além.
Na teoria, a função do ícone da lupa é informar o consumidor sobre a composição dos alimentos. Na prática, a iniciativa deveria apoiar escolhas alimentares mais saudáveis. Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, um caminho simples para manter uma alimentação saudável é evitar o consumo de ultraprocessados. São opções que contêm pouco ou nenhum alimento inteiro, sendo feitas majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (como amido do milho ou proteína da soja). Por isso, é comum que sejam adicionados corantes, aromatizantes e outros aditivos que os deixam atraentes.
Eles também costumam ter excesso de açúcar, gordura saturada e sódio. Dessa forma, uma grande parte dos alimentos aptos a levar o selo da lupa é composta de ultraprocessados. Ainda assim, muitos alimentos nocivos à saúde podem passar incólumes, já que o perfil nutricional — ou seja, os limites para cada nutriente crítico — escolhido pela Anvisa é demasiado permissivo.
Para receber um rótulo de "alto em sódio" no Brasil, por exemplo, um alimento precisa ter ao menos 600 mg do nutriente a cada 100 g de produto. Em comparação, o perfil nutricional da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) atrela a quantidade de sódio ao total calórico do produto. Na prática, a diferença é notável: no caso de um caldo de galinha em cubos, o modelo da Anvisa tolera o dobro de sódio aceito pela Opas.
Brechas como essa, aliadas à publicidade já costumeira desses produtos, podem seguir provocando confusão ao consumidor. Mais que mostrar excessos em nutrientes, é necessário ajudar a população a identificar os ultraprocessados. Isso poderia ocorrer facilmente com o destaque da presença de certos tipos de aditivos alimentares. Afinal, nenhum alimento feito com comida de verdade precisa de "aroma idêntico ao natural de morango".
Para além das mudanças na rotulagem, o Brasil pode seguir o exemplo do Chile, que, junto às regras, implementou políticas públicas de alimentação saudável. A iniciativa inclui campanhas educativas e a regulação da publicidade e da venda de produtos não saudáveis a crianças. São ações que beneficiariam largamente a alimentação e a saúde no Brasil.
"A iniciativa inclui campanhas educativas e a regulação da publicidade e da venda de produtos não saudáveis a crianças. São ações que beneficiariam largamente a alimentação e a saúde no Brasil." (Texto 1, 9º parágrafo)
Na passagem acima, o futuro do pretérito (em "beneficiariam") indica que o evento expresso pelo verbo é dependente de uma condição.
Dentre as alternativas abaixo, aquela em que o futuro do pretérito veicula esse mesmo significado é:
- AO réu pediu redução da pena sob o argumento de que o crime teria sido cometido de forma não intencional.
- BPaulo garantiu que acabaria o trabalho antes das 18h.
- CO plano daria certo, caso vocês fossem mais persistentes. (alternativa correta)
- DOntem, ele comentou que viria à festa hoje.
- EO senhor teria como me conceder uma extensão do prazo?
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O futuro do pretérito (ou condicional) é um tempo verbal que indica uma ação que aconteceria no futuro, mas que está condicionada à realização de outra ação ou evento. É como dizer "isso aconteceria se outra coisa acontecesse".
- A) Incorreta: O futuro do pretérito composto ("teria sido cometido") aqui expressa uma hipótese ou possibilidade em relação a um evento passado, não uma dependência de condição para uma ação futura.
- B) Incorreta: O futuro do pretérito ("acabaria") é usado para indicar uma ação futura em relação a um momento passado (discurso indireto), ou seja, Paulo "garantiu" no passado que a ação "acabaria" no futuro daquele passado. Não há uma condição explícita ou implícita para a realização da ação, apenas a projeção de um evento.
- (C) Correta: O futuro do pretérito ("daria") indica que a realização da ação ("o plano daria certo") está condicionada a outro evento ("caso vocês fossem mais persistentes"). Esta é a mesma função do verbo na frase original ("beneficiariam" se as ações fossem implementadas).
- D) Incorreta: Assim como na alternativa B, o futuro do pretérito ("viria") é empregado para expressar uma ação futura em relação a um momento passado (discurso indireto), sem a indicação de uma condição para sua ocorrência. A armadilha aqui é confundir o "futuro no passado" (ação que era futura em relação a um ponto no passado) com a ideia de uma ação condicionada.
- E) Incorreta: O futuro do pretérito ("teria") é usado para formular um pedido ou pergunta de forma mais polida ou atenuada, não para expressar uma ação dependente de uma condição.
Fonte: FGV PSS TJ-BA 2023 Conciliador (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.