Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJ-BA 2023 (nº 3)
Texto 1 – O caminho da alimentação saudável
Nova rotulagem da Anvisa é bem-vinda, mas aquém de seu potencial
Carlos Augusto Monteiro
Laís Amaral MaisDesde outubro de 2022, o consumidor brasileiro vem se deparando com mudanças nas embalagens de alimentos nos mercados. Trata-se do novo modelo de rotulagem nutricional determinado pela Anvisa.
O uso do padrão é válido para produtos alimentícios lançados a partir de 9 de outubro; para aqueles já existentes, o prazo para adequação pode ser de um a três anos a partir da mesma data, dependendo da natureza do produto.
O modelo traz novidades importantes. A principal é a inclusão de um ícone de lupa, indicando alto teor de gordura saturada, açúcar adicionado e sódio — cuja ingestão excessiva aumenta o risco de doenças crônicas. Além disso, padroniza o design da tabela nutricional e mostra valores nutricionais do alimento com base em porções de 100 g ou 100 ml, facilitando comparações entre produtos semelhantes de marcas distintas.
A adoção é um avanço. O rótulo de um alimento traz informações que orientam o consumidor sobre os componentes do produto, interferindo na decisão de compra. A escolha da nova rotulagem, no entanto, poderia — e deveria — ter ido além.
Na teoria, a função do ícone da lupa é informar o consumidor sobre a composição dos alimentos. Na prática, a iniciativa deveria apoiar escolhas alimentares mais saudáveis. Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, um caminho simples para manter uma alimentação saudável é evitar o consumo de ultraprocessados. São opções que contêm pouco ou nenhum alimento inteiro, sendo feitas majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (como amido do milho ou proteína da soja). Por isso, é comum que sejam adicionados corantes, aromatizantes e outros aditivos que os deixam atraentes.
Eles também costumam ter excesso de açúcar, gordura saturada e sódio. Dessa forma, uma grande parte dos alimentos aptos a levar o selo da lupa é composta de ultraprocessados. Ainda assim, muitos alimentos nocivos à saúde podem passar incólumes, já que o perfil nutricional — ou seja, os limites para cada nutriente crítico — escolhido pela Anvisa é demasiado permissivo.
Para receber um rótulo de "alto em sódio" no Brasil, por exemplo, um alimento precisa ter ao menos 600 mg do nutriente a cada 100 g de produto. Em comparação, o perfil nutricional da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) atrela a quantidade de sódio ao total calórico do produto. Na prática, a diferença é notável: no caso de um caldo de galinha em cubos, o modelo da Anvisa tolera o dobro de sódio aceito pela Opas.
Brechas como essa, aliadas à publicidade já costumeira desses produtos, podem seguir provocando confusão ao consumidor. Mais que mostrar excessos em nutrientes, é necessário ajudar a população a identificar os ultraprocessados. Isso poderia ocorrer facilmente com o destaque da presença de certos tipos de aditivos alimentares. Afinal, nenhum alimento feito com comida de verdade precisa de "aroma idêntico ao natural de morango".
Para além das mudanças na rotulagem, o Brasil pode seguir o exemplo do Chile, que, junto às regras, implementou políticas públicas de alimentação saudável. A iniciativa inclui campanhas educativas e a regulação da publicidade e da venda de produtos não saudáveis a crianças. São ações que beneficiariam largamente a alimentação e a saúde no Brasil.
"Nova rotulagem da Anvisa é bem-vinda, mas aquém de seu potencial" (Texto 1, Intertítulo)
O excerto acima corresponde ao intertítulo do texto 1. Dentre as passagens abaixo, a única que justifica a afirmação contida no trecho sublinhado é:
- A"O uso do padrão é válido para produtos alimentícios lançados a partir de 9 de outubro; para aqueles já existentes, o prazo para adequação pode ser de um a três anos a partir da mesma data [...]" (2º parágrafo);
- B"O modelo traz novidades importantes. A principal é a inclusão de um ícone de lupa, indicando alto teor de gordura saturada, açúcar adicionado e sódio [...]" (3º parágrafo);
- C"Além disso, padroniza o design da tabela nutricional e mostra valores nutricionais do alimento com base em porções de 100 g ou 100 ml [...]" (3º parágrafo);
- D"Por isso, é comum que sejam adicionados corantes, aromatizantes e outros aditivos que os deixam atraentes." (5º parágrafo);
- E"Ainda assim, muitos alimentos nocivos à saúde podem passar incólumes, já que o perfil nutricional — ou seja, os limites para cada nutriente crítico — escolhido pela Anvisa é demasiado permissivo." (6º parágrafo). (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Para justificar uma afirmação, você deve encontrar no texto o trecho que explica o motivo ou a razão por trás dessa afirmação. No caso, a afirmação é que a nova rotulagem da Anvisa é "aquém de seu potencial", ou seja, ela não atinge a sua capacidade máxima ou tem limitações.
- (A) Incorreta: Este trecho descreve o prazo de implementação da nova rotulagem, não uma limitação de seu potencial.
- (B) Incorreta: Este trecho aponta uma novidade importante e positiva da rotulagem, que a torna "bem-vinda", e não "aquém de seu potencial".
- (C) Incorreta: Este trecho também descreve uma melhoria ou padronização da rotulagem, contribuindo para que seja "bem-vinda", e não para suas deficiências.
- (D) Incorreta: Este trecho explica por que os ultraprocessados são atraentes devido a aditivos, o que é um problema dos alimentos em si, mas não justifica diretamente por que a nova rotulagem está aquém de seu potencial em identificá-los ou alertar sobre eles. É uma característica dos produtos, não uma falha do sistema de rotulagem em si.
- (E) Correta: Este trecho afirma que "muitos alimentos nocivos à saúde podem passar incólumes" porque o perfil nutricional (os limites para nutrientes críticos) escolhido pela Anvisa é "demasiado permissivo". Isso explica diretamente por que a rotulagem, apesar de ser um avanço, não atinge todo o seu potencial, pois suas regras não são rigorosas o suficiente para identificar todos os produtos prejudiciais.
Fonte: FGV PSS TJ-BA 2023 Conciliador (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.