Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS IBGE 2025 2026 (nº 2)
Maria
Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?
A palma de uma de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!
Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? Cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...
EVARISTO, Conceição. Olhos D'água (adaptado). Rio de Janeiro: Pallas/Fundação Biblioteca Nacional, 2016.
Assinale a opção que apresenta a crítica presente no texto.
- AA desigualdade social e seus desdobramentos. (alternativa correta)
- BO descaso com a saúde pública no Brasil.
- CA agressão física contra a mulher, praticada pelos parceiros.
- DA superlotação dos transportes públicos.
- EA violência urbana praticada por menores.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A crítica social em um texto é a denúncia ou o questionamento de problemas e injustiças presentes na sociedade, que são expostos através da narrativa e dos personagens.
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(A) Correta: O texto expõe claramente a desigualdade social através da condição de Maria, que é empregada doméstica, depende de "restos" e gorjetas da patroa para alimentar os filhos e comprar remédios, e vive em um "barraco". Os desdobramentos dessa desigualdade são evidentes na pobreza, na falta de acesso a bens básicos (como melão para os filhos), na precariedade do transporte e na dificuldade de prover saúde para a família, além da instabilidade familiar.
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(B) Incorreta: Embora Maria precise comprar remédios para os filhos doentes, o texto foca na sua dificuldade financeira para adquiri-los (a gorjeta foi "numa hora boa"), e não em uma crítica direta ou explícita ao sistema de saúde pública. A necessidade de comprar remédios é um desdobramento da sua condição de pobreza, que é parte da desigualdade social. A armadilha aqui é confundir uma consequência da pobreza com a crítica principal ao sistema de saúde.
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(C) Incorreta: Não há qualquer menção ou indício de agressão física contra a mulher no texto. O reencontro de Maria com o pai de seu filho é marcado por nostalgia e mágoa, mas não por violência.
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(D) Incorreta: O texto afirma explicitamente que "O ônibus não estava cheio, havia lugares", contradizendo a ideia de superlotação. A queixa de Maria era sobre a demora e o custo do transporte.
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(E) Incorreta: Não há nenhuma referência a violência urbana ou a menores praticando-a em qualquer parte do texto.
Fonte: FGV PSS IBGE 2025 2026 Supervisor de Coleta e Qualidade (SCQ) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.