Questão nº 11

Questão de Português · FGV DPGE-RJ 2014 (nº 11)

FGV2014Técnico Superior JurídicoPortuguês
Gabarito: Dver comentário ↓

ESQUECERAM O PRINCIPAL

Houve um tempo em que os ditos setores progressistas pautavam suas ações por filosofias coerentes. Assim, advogados da infância buscavam promover os interesses das crianças, feministas visavam a afirmar a autonomia das mulheres e militantes dos direitos de homossexuais tentavam acabar com a discriminação contra gays, mas sem perder de vista teses mais gerais da esquerda não marxista, que incluíam a ampliação das liberdades e a despenalização do direito.

As coisas mudaram. E para pior, a meu ver. Hoje, os defensores das criancinhas deblateram para que o Congresso mantenha um mecanismo jurídico que permite mandar para a cadeia o pai que não paga em dia pensão do filho. Pouco importa que a prisão por dívidas represente um retrocesso de 2600 anos – uma das reformas de Sólon que facilitou a introdução da democracia em Atenas foi justamente o fim da servidão por dívidas – e que é quase certo que, encarcerado, o pai da criança terá muito menor probabilidade de honrar seus compromissos financeiros.

As feministas agora apoiam o acórdão do Supremo Tribunal Federal que retirou das mulheres o direito de decidir se querem ou não processar companheiros, tornando agressões leves no âmbito do lar um crime de ação pública incondicionada. Pouco importa que isso torne as mulheres menos livres e introduza uma diferenciação de gênero (na situação inversa, um homem pode decidir se processa ou não).

Por fim, homossexuais pedem a edição de uma lei que torne crime referir-se a gays em termos depreciativos ou condenatórios. Pouco importa que tal medida, se adotada, representaria uma limitação da liberdade de expressão, o mais fundamental dos princípios democráticos.

É natural que grupos de ativistas se especializem e, ao fazê-lo, percam de vista as grandes questões, mas fico com a impressão de que estão colocando a parte à frente do todo.

Hélio Schwartsman, Folha de São Paulo, 7/01/2014.


O segmento do texto em que há um erro de norma culta no que diz respeito ao emprego de tempos verbais é

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

O conceito-chave aqui é a concordância verbal, que exige que os tempos e modos dos verbos se harmonizem na frase, especialmente em orações subordinadas e condicionais. O modo subjuntivo é usado para expressar incerteza, desejo, possibilidade ou uma ação hipotética, enquanto o modo indicativo expressa certeza ou realidade.

  • (A) Incorreta: A sequência de tempos verbais está correta. "Apoiam" (presente do indicativo) refere-se a uma ação atual, "retirou" (pretérito perfeito do indicativo) a uma ação passada e concluída, e "querem" (presente do indicativo) a uma vontade atual.
  • (B) Incorreta: A construção "Pouco importa que..." exige o uso do presente do subjuntivo ("torne", "introduza"), que está corretamente empregado para expressar uma consequência ou possibilidade.
  • (C) Incorreta: A oração "pedem a edição de uma lei que torne crime..." utiliza "pedem" (presente do indicativo) para a ação principal e "torne" (presente do subjuntivo) na oração subordinada adjetiva com sentido de finalidade, o que está correto.
  • (D) Correta: O erro reside na combinação de "Pouco importa que" com "representaria". A expressão "Pouco importa que..." introduz uma oração subordinada que geralmente exige o presente do subjuntivo para expressar uma consequência ou possibilidade ("represente"). O uso de "representaria" (futuro do pretérito do indicativo) indica uma consequência de uma condição hipotética ou irrealizada, o que não se alinha com a regência de "Pouco importa que". A forma correta seria "Pouco importa que tal medida, se adotada, represente uma limitação...".
  • (E) Incorreta: A frase "É natural que grupos de ativistas se especializem e, ao fazê-lo, percam de vista..." está gramaticalmente correta. "É natural que" exige o presente do subjuntivo ("se especializem", "percam"), que está devidamente empregado.

Fonte: FGV DPGE-RJ 2014 Técnico Superior Jurídico (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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