Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT5 2022 (nº 5)
Certo Juca Ludovico, oficial de carpinteiro, acordou um dia com a alma transformada. Começou por faltar ao serviço, a que era assíduo. Surpreendendo a consorte, dirigiu-se ao botequim e pagou cerveja para todos. Juca não era forreta, mas a libação matinal e coletiva não tinha propósito. Aos que chegavam e inquiriam com o olhar, ele ia dizendo: “Abanquem-se e tomem parte na minha satisfação. Vão acontecer grandes coisas por meu arbítrio, e quero estar à altura dos acontecimentos”. Os ouvintes pasmavam e bebiam. Juca não entrava no miúdo, falava em honras, feitos e bens, sem particularizá-los, mas sentia-se que pisara a caçamba de altas cavalarias.
O pior é que não endoidecera; estava dominado pelo Capeta, que no sono lhe inflara o apetite de glória. Raciocinava perfeitamente nas coisas triviais, insistindo porém em que sua vida mudara. Ofereceu emprego a um, deu a outro uma fazenda de gado. Pedia apenas que esperassem duas semanas, tempo bastante para receber do Banco da Inglaterra o ouro que ali devia estar à sua disposição, e que de boa mente partilharia com a multidão. Pode-se descrer do juízo de um homem que rasgue dinheiro, não porém do de outro que reparta dinheiro conosco.
Disfarçado em fogueteiro, e por via das dúvidas embuçado na capa preta, o Diabo misturava-se com a turba, sorria, esfregava os cascos. Apenas dona Neném, senhora idosa e devota, olhava tudo de beiço reprovador, e interpelou-o: “Juca, meu sobrinho, de onde te vem tamanho poder?”. Ele não se deu por achado: “Ora, minha tia, então não vê que é de meu padrinho sr. são José? Ele me procurou esta noite e disse: Vai e faze brilhar o nosso nome. És a flor dos Josés, e por tua valia serei cultuado na terra toda”. “Pois eu duvido”, retrucou dona Neném. “Vamos entrar na igreja e conversar com são José.”
Dona Neném, Juca e a multidão entraram de roldão. O altar do santo nem estava florido; era todo humildade e recato. Juca postou-se em relevo e soltou o verbo: “Aqui está, meu padrinho, a multidão que eu trouxe para servi-lo. Se o senhor me prestigiar, como espero, eles levarão sua imagem por toda parte e receberão grandezas. Faça um sinal com a ponta do dedo mindinho, e minha tia se convencerá”.
O dedo de são José não se mexeu. “São José”, continuou Juca, “nosso trato está firme. Eu o estou cumprindo, agora é a sua vez. Preciso de meios para agir. A propaganda custa caro. Tenho de distribuir mercês a amigos e inimigos, atrair incrédulos. Depende do senhor, padrinho”.
São José não respondia. “Será possível que o senhor não escute bem? Uma palavrinha sua, e irei a uma cadeia de rádio e televisão iniciar a campanha de esclarecimento universal.”
O santo, na moita. “Ele está assim porque ainda não me lembrei de melhorar o seu altarzinho, ora veja! Fique tranquilo, meu santo. Vou fazer-lhe uma igreja de ouro e em volta construirei uma cidade inteira em sua honra; será a primeira do mundo e nela só habitarão os eleitos, sob minha chefia. Combinado? Agora mova o dedinho.”
A expectativa era enorme. Dona Neném, trêmula, chegada ao altar, viu, horrorizada, mover-se, não o dedo, mas a mão inteira de são José. E estendendo-se o braço, a mão pousou no ombro de Juca. “Estão vendo?”, parecia dizer o olhar deste, pois a boca, maravilhada, não piava. E são José sorrindo, mansamente, disse estas palavras: “Juca, volte à oficina, pegue da enxó e da plaina e trabalhe como de costume. Essas coisas não lhe ficam bem, meu filho”. Ouviu-se um estouro no adro. Era o Diabo que explodia, de ódio.
Pedia apenas que esperassem duas semanas (2º parágrafo)
Ao ser transpor o trecho acima para o discurso direto, o termo sublinhado assume a seguinte forma:
- Aesperam.
- Besperaram.
- Cesperem. (alternativa correta)
- Desperavam.
- Eesperariam.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Quando se transforma um trecho do discurso indireto para o discurso direto, é necessário ajustar os tempos e modos verbais para refletir a fala original da personagem. Verbos que expressam ordens, pedidos ou sugestões, que no discurso indireto podem estar no pretérito imperfeito do subjuntivo, geralmente se convertem para o modo imperativo ou presente do subjuntivo no discurso direto.
- (A) Incorreta: "Esperam" está no presente do indicativo, que indica uma ação habitual ou um fato, e não um pedido ou uma ordem.
- (B) Incorreta: "Esperaram" está no pretérito perfeito do indicativo, indicando uma ação passada concluída, o que não corresponde a um pedido.
- (C) Correta: "Esperem" é a forma do verbo "esperar" no imperativo (2ª pessoa do plural) ou no presente do subjuntivo (3ª pessoa do plural). Ambas as formas são adequadas para expressar um pedido ou uma ordem no discurso direto, que é a intenção de Juca ao pedir que aguardassem. A frase no discurso direto seria: "Esperem duas semanas."
- (D) Incorreta: "Esperavam" está no pretérito imperfeito do indicativo, que descreve uma ação passada contínua ou habitual, e não um pedido.
- (E) Incorreta: "Esperariam" está no futuro do pretérito do indicativo, que expressa uma condição ou uma ação futura dependente de outra, não um pedido direto.
Fonte: FCC TRT5 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.