Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT5 2022 (nº 4)
Certo Juca Ludovico, oficial de carpinteiro, acordou um dia com a alma transformada. Começou por faltar ao serviço, a que era assíduo. Surpreendendo a consorte, dirigiu-se ao botequim e pagou cerveja para todos. Juca não era forreta, mas a libação matinal e coletiva não tinha propósito. Aos que chegavam e inquiriam com o olhar, ele ia dizendo: “Abanquem-se e tomem parte na minha satisfação. Vão acontecer grandes coisas por meu arbítrio, e quero estar à altura dos acontecimentos”. Os ouvintes pasmavam e bebiam. Juca não entrava no miúdo, falava em honras, feitos e bens, sem particularizá-los, mas sentia-se que pisara a caçamba de altas cavalarias.
O pior é que não endoidecera; estava dominado pelo Capeta, que no sono lhe inflara o apetite de glória. Raciocinava perfeitamente nas coisas triviais, insistindo porém em que sua vida mudara. Ofereceu emprego a um, deu a outro uma fazenda de gado. Pedia apenas que esperassem duas semanas, tempo bastante para receber do Banco da Inglaterra o ouro que ali devia estar à sua disposição, e que de boa mente partilharia com a multidão. Pode-se descrer do juízo de um homem que rasgue dinheiro, não porém do de outro que reparta dinheiro conosco.
Disfarçado em fogueteiro, e por via das dúvidas embuçado na capa preta, o Diabo misturava-se com a turba, sorria, esfregava os cascos. Apenas dona Neném, senhora idosa e devota, olhava tudo de beiço reprovador, e interpelou-o: “Juca, meu sobrinho, de onde te vem tamanho poder?”. Ele não se deu por achado: “Ora, minha tia, então não vê que é de meu padrinho sr. são José? Ele me procurou esta noite e disse: Vai e faze brilhar o nosso nome. És a flor dos Josés, e por tua valia serei cultuado na terra toda”. “Pois eu duvido”, retrucou dona Neném. “Vamos entrar na igreja e conversar com são José.”
Dona Neném, Juca e a multidão entraram de roldão. O altar do santo nem estava florido; era todo humildade e recato. Juca postou-se em relevo e soltou o verbo: “Aqui está, meu padrinho, a multidão que eu trouxe para servi-lo. Se o senhor me prestigiar, como espero, eles levarão sua imagem por toda parte e receberão grandezas. Faça um sinal com a ponta do dedo mindinho, e minha tia se convencerá”.
O dedo de são José não se mexeu. “São José”, continuou Juca, “nosso trato está firme. Eu o estou cumprindo, agora é a sua vez. Preciso de meios para agir. A propaganda custa caro. Tenho de distribuir mercês a amigos e inimigos, atrair incrédulos. Depende do senhor, padrinho”.
São José não respondia. “Será possível que o senhor não escute bem? Uma palavrinha sua, e irei a uma cadeia de rádio e televisão iniciar a campanha de esclarecimento universal.”
O santo, na moita. “Ele está assim porque ainda não me lembrei de melhorar o seu altarzinho, ora veja! Fique tranquilo, meu santo. Vou fazer-lhe uma igreja de ouro e em volta construirei uma cidade inteira em sua honra; será a primeira do mundo e nela só habitarão os eleitos, sob minha chefia. Combinado? Agora mova o dedinho.”
A expectativa era enorme. Dona Neném, trêmula, chegada ao altar, viu, horrorizada, mover-se, não o dedo, mas a mão inteira de são José. E estendendo-se o braço, a mão pousou no ombro de Juca. “Estão vendo?”, parecia dizer o olhar deste, pois a boca, maravilhada, não piava. E são José sorrindo, mansamente, disse estas palavras: “Juca, volte à oficina, pegue da enxó e da plaina e trabalhe como de costume. Essas coisas não lhe ficam bem, meu filho”. Ouviu-se um estouro no adro. Era o Diabo que explodia, de ódio.
− Certo Juca Ludovico, oficial de carpinteiro, acordou um dia com a alma transformada. Começou por faltar ao serviço, a que era assíduo. (1º parágrafo).
− O pior é que não endoidecera; estava dominado pelo Capeta, que no sono lhe inflara o apetite de glória. (2º parágrafo).
Os pronomes sublinhados referem-se, respectivamente, a
- A“serviço” e “Capeta”.
- B“Juca Ludovico” e “coisa”.
- C“assíduo” e “apetite de glória”.
- D“Juca Ludovico” e “Juca Ludovico”.
- E“serviço” e “Juca Ludovico”. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A referência pronominal é o uso de pronomes (palavras que substituem nomes) para retomar termos já mencionados no texto, evitando repetições e mantendo a clareza e a conexão entre as ideias.
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Análise do primeiro pronome "que": "Começou por faltar ao serviço, a que era assíduo." O pronome relativo "que", precedido pela preposição "a", retoma o termo "serviço", indicando que Juca era assíduo ao serviço.
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Análise do segundo pronome "lhe": "estava dominado pelo Capeta, que no sono lhe inflara o apetite de glória." O pronome oblíquo "lhe" funciona como objeto indireto do verbo "inflara". Quem o Capeta inflou o apetite de glória? Inflou a Juca Ludovico. Portanto, "lhe" refere-se a Juca Ludovico.
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(A) Incorreta: O pronome "lhe" não se refere a "Capeta", mas sim à pessoa a quem o Capeta inflou o apetite de glória, que é Juca.
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(B) Incorreta: O pronome "que" refere-se a "serviço", não a "Juca Ludovico", e "lhe" não se refere a "coisa".
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(C) Incorreta: O pronome "que" refere-se a "serviço", não ao adjetivo "assíduo", e "lhe" é o destinatário da ação, não o "apetite de glória" em si.
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(D) Incorreta: O pronome "que" refere-se a "serviço", não a "Juca Ludovico".
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(E) Correta: O pronome "que" retoma corretamente "serviço" (Juca era assíduo ao serviço), e o pronome "lhe" retoma corretamente "Juca Ludovico" (o Capeta inflou o apetite de glória a Juca Ludovico). A armadilha mais comum para "lhe" é confundi-lo com o agente da ação (Capeta) em vez do seu beneficiário ou alvo (Juca).
Fonte: FCC TRT5 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.