Questão nº 6
Questão de Português · FCC TRT4 2022 (nº 6)
Atenção: Para responder às questões de números 05 a 14, considere o trecho da crônica "O VIP sem querer", de Carlos Drummond de Andrade.
João Brandão foi ao Aeroporto Internacional para abraçar um amigo dileto, que viajava com destino ao Paraguai. Pessoa comum despedindo-se de pessoa comum. Mas acontecem coisas. Alguém, informado da viagem, pedira ao amigo que levasse uma encomenda a Assunção. A encomenda apareceu na hora, entregue por um senhor que foi logo dizendo:
– O doutor não precisa se incomodar. Eu providencio o despacho e tudo mais.
O avião estava atrasado duas horas, o que não é muito, em comparação com outros atrasos por aí, inclusive o da chegada do estado de direito. O senhor da encomenda procurou amenizar a espera:
– O doutor não vai ficar duas horas sentado numa dessas cadeiras aí, vendo os minutos se arrastarem. Espere um momento, que eu dou um jeitinho.
Saiu para confabular mais adiante e voltou com a boa nova:
– Por obséquio, me acompanhe até a sala VIP.
– Não é preciso – objetou o meu amigo. – Posso esperar perfeitamente aqui mesmo.
– Não senhor. Estará melhor lá em cima.
– Acontece que estou aqui com um amigo.
– Ele também vai com o doutor.
Não havia remédio senão subir à sala VIP. Seu amigo, encabulado, e João Brandão mais ainda. Seria indelicado insistir na recusa. E depois, por que não ir àquela sala?
Subiram pelas escadas rolantes, precedidos de um abridor de caminhos, que com o indicador ia pedindo passagem para os dois ilustres desconhecidos.
Na sala VIP, enorme e vazia, pois há uma hora na vida em que até os VIP escasseiam, João Brandão e seu amigo foram convidados por um garçom solícito a beber qualquer coisa, a ler revistas, a pedir o que lhes aprouvesse.
– Obrigado – respondeu o amigo. – Não desejamos nada. Ou você, João, deseja alguma coisa?
– Também não. Obrigado.
O garçom insistia:
– Nem um cafezinho, doutor?
Vá lá, um cafezinho. Sorvendo-o a lentos goles, pareciam sorver o espanto de serem promovidos a VIP.
– Veja como são as coisas, João. Nós aqui na maciota, em poltronas deleitáveis, contemplando quadros abstratos, e lá embaixo o povo concreto fazendo fila para conferir as passagens ou esperando em cadeiras padronizadas a hora do embarque.
– É mesmo, sô.
– Entretanto eles pagaram imposto como nós, custearam como nós a construção deste edifício, têm direitos iguais ao nosso de desfrutar as comodidades deste salão, mas na hora de desfrutá-las só nós dois é que somos convocados.
– Nem me fale. Estou ficando com remorso.
– Vivemos numa república, João. Você acha isso republicano?
– Eu? Eu acho que estou aqui de intrometido. Você ainda passa, porque está levando alguma coisa a alguém, e por isso lhe conferiram honras de VIP. Mas eu sou apenas acompanhante de um VIP, e acompanhante por cento e vinte minutos. E agora que você me disse essas coisas, não aguento mais, vou-me embora já. Desculpe.
– Que é isso, João, estava brincando. Pensando bem, o povão foi homenageado em nossas humildes pessoas. E, como diz o Milton Carneiro na televisão, a vida é curta, e isto é muito bom!
João Brandão quis assimilar o sentimento do amigo, se é que este sentia realmente a doçura da situação, mas quando a gente é promovida a VIP e não tem estrutura de VIP (é uma coisa que nasce com o indivíduo, ou não nasce, e jamais lhe será consubstancial)... A verdade é que os dois continuaram ali sem a menor convicção de serem VIP.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Boca de luar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014)
O narrador recorre a uma expressão paradoxal no seguinte trecho:
- A"Saiu para confabular mais adiante" (5º parágrafo).
- B"há uma hora na vida em que até os VIP escasseiam" (13º parágrafo).
- C"foram convidados por um garçom solícito a beber qualquer coisa" (13º parágrafo).
- D"Subiram pelas escadas rolantes" (12º parágrafo).
- E"ia pedindo passagem para os dois ilustres desconhecidos" (12º parágrafo). (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Um paradoxo é uma figura de linguagem que apresenta uma ideia aparentemente contraditória ou absurda, mas que, ao ser analisada, revela um sentido lógico, profundo ou uma verdade.
- (A) Incorreta: "Saiu para confabular mais adiante" descreve uma ação direta (conversar em segredo em outro lugar) e não contém nenhuma contradição aparente ou sentido oculto.
- (B) Incorreta: Esta é a armadilha. A frase "há uma hora na vida em que até os VIP escasseiam" expressa uma observação irônica ou uma constatação de que, mesmo pessoas importantes, podem não estar presentes em certos momentos. Não há uma contradição intrínseca que revele um sentido mais profundo de forma paradoxal; "VIP" e "escassear" não são termos que se anulam ou se chocam para criar um novo significado. É uma situação possível e não uma contradição lógica.
- (C) Incorreta: "foram convidados por um garçom solícito a beber qualquer coisa" descreve uma ação esperada de um garçom atencioso ("solícito") e não apresenta contradição.
- (D) Incorreta: "Subiram pelas escadas rolantes" é uma descrição literal de uma ação e não contém nenhuma figura de linguagem.
- (E) Correta: A expressão "ilustres desconhecidos" é um paradoxo porque une dois termos de sentido oposto: "ilustres" (notáveis, conhecidos) e "desconhecidos" (anônimos, não conhecidos). A contradição aparente reside no fato de que eles estavam sendo tratados como pessoas importantes (ilustres) devido ao tratamento VIP, mas na realidade eram anônimos (desconhecidos) para aqueles que abriam caminho. Essa oposição revela a ironia da situação, onde o status de VIP é conferido artificialmente, sem que haja um reconhecimento genuíno.
Fonte: FCC TRT4 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.