Questão nº 5

Questão de Português · FCC TRT4 2022 (nº 5)

FCC2022Técnico Judiciário - Área AdministrativaPortuguês
Gabarito: Aver comentário ↓

Atenção: Para responder às questões de números 05 a 14, considere o trecho da crônica "O VIP sem querer", de Carlos Drummond de Andrade.

João Brandão foi ao Aeroporto Internacional para abraçar um amigo dileto, que viajava com destino ao Paraguai. Pessoa comum despedindo-se de pessoa comum. Mas acontecem coisas. Alguém, informado da viagem, pedira ao amigo que levasse uma encomenda a Assunção. A encomenda apareceu na hora, entregue por um senhor que foi logo dizendo:

– O doutor não precisa se incomodar. Eu providencio o despacho e tudo mais.

O avião estava atrasado duas horas, o que não é muito, em comparação com outros atrasos por aí, inclusive o da chegada do estado de direito. O senhor da encomenda procurou amenizar a espera:

– O doutor não vai ficar duas horas sentado numa dessas cadeiras aí, vendo os minutos se arrastarem. Espere um momento, que eu dou um jeitinho.

Saiu para confabular mais adiante e voltou com a boa nova:

– Por obséquio, me acompanhe até a sala VIP.

– Não é preciso – objetou o meu amigo. – Posso esperar perfeitamente aqui mesmo.

– Não senhor. Estará melhor lá em cima.

– Acontece que estou aqui com um amigo.

– Ele também vai com o doutor.

Não havia remédio senão subir à sala VIP. Seu amigo, encabulado, e João Brandão mais ainda. Seria indelicado insistir na recusa. E depois, por que não ir àquela sala?

Subiram pelas escadas rolantes, precedidos de um abridor de caminhos, que com o indicador ia pedindo passagem para os dois ilustres desconhecidos.

Na sala VIP, enorme e vazia, pois há uma hora na vida em que até os VIP escasseiam, João Brandão e seu amigo foram convidados por um garçom solícito a beber qualquer coisa, a ler revistas, a pedir o que lhes aprouvesse.

– Obrigado – respondeu o amigo. – Não desejamos nada. Ou você, João, deseja alguma coisa?

– Também não. Obrigado.

O garçom insistia:

– Nem um cafezinho, doutor?

Vá lá, um cafezinho. Sorvendo-o a lentos goles, pareciam sorver o espanto de serem promovidos a VIP.

– Veja como são as coisas, João. Nós aqui na maciota, em poltronas deleitáveis, contemplando quadros abstratos, e lá embaixo o povo concreto fazendo fila para conferir as passagens ou esperando em cadeiras padronizadas a hora do embarque.

– É mesmo, sô.

– Entretanto eles pagaram imposto como nós, custearam como nós a construção deste edifício, têm direitos iguais ao nosso de desfrutar as comodidades deste salão, mas na hora de desfrutá-las só nós dois é que somos convocados.

– Nem me fale. Estou ficando com remorso.

– Vivemos numa república, João. Você acha isso republicano?

– Eu? Eu acho que estou aqui de intrometido. Você ainda passa, porque está levando alguma coisa a alguém, e por isso lhe conferiram honras de VIP. Mas eu sou apenas acompanhante de um VIP, e acompanhante por cento e vinte minutos. E agora que você me disse essas coisas, não aguento mais, vou-me embora já. Desculpe.

– Que é isso, João, estava brincando. Pensando bem, o povão foi homenageado em nossas humildes pessoas. E, como diz o Milton Carneiro na televisão, a vida é curta, e isto é muito bom!

João Brandão quis assimilar o sentimento do amigo, se é que este sentia realmente a doçura da situação, mas quando a gente é promovida a VIP e não tem estrutura de VIP (é uma coisa que nasce com o indivíduo, ou não nasce, e jamais lhe será consubstancial)... A verdade é que os dois continuaram ali sem a menor convicção de serem VIP.

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Boca de luar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014)


A voz do personagem mescla-se à voz do narrador, configurando o chamado discurso indireto livre, no seguinte trecho:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

O discurso indireto livre é uma técnica narrativa em que a voz do narrador se mescla com a voz ou o pensamento de um personagem, sem que haja marcadores explícitos como aspas, travessões ou verbos de elocução ("disse que", "pensou que"). O narrador adota a perspectiva e o tom do personagem, mas mantém a terceira pessoa.

(A) Correta: O trecho "Seria indelicado insistir na recusa. E depois, por que não ir àquela sala?" apresenta pensamentos e justificativas dos personagens (João Brandão e seu amigo) para aceitar o convite, mas são narrados em terceira pessoa pelo narrador, sem aspas ou verbos como "eles pensaram que". A pergunta retórica "por que não ir àquela sala?" reforça a internalização da voz do personagem na narração.
(B) Incorreta: "Alguém, informado da viagem, pedira ao amigo que levasse uma encomenda a Assunção." Este é um trecho de narração pura, onde o narrador apenas relata um fato, sem incorporar a voz ou o pensamento de um personagem.
(C) Incorreta: "– Não é preciso – objetou o meu amigo. – Posso esperar perfeitamente aqui mesmo." Este é um exemplo claro de discurso direto, marcado pelo uso do travessão e do verbo de elocução "objetou", que introduzem a fala exata do personagem. A armadilha aqui é confundir a fala explícita de um personagem com a fusão de vozes característica do discurso indireto livre.
(D) Incorreta: "– Obrigado – respondeu o amigo. – Não desejamos nada. Ou você, João, deseja alguma coisa?" Assim como na alternativa C, este é discurso direto, indicado pelo travessão e pelo verbo de elocução "respondeu", que reproduzem a fala literal do personagem.
(E) Incorreta: "– Eu? Eu acho que estou aqui de intrometido." Este é outro exemplo de discurso direto, com o uso do travessão para indicar a fala exata do personagem.

Fonte: FCC TRT4 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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