Questão nº 9
Questão de Português · FCC TRT4 2022 (nº 9)
Minha primeira tentativa de ler Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, foi um fracasso. Eu ainda estava na escola e me confundia com as frases longas e as palavras antigas. Acabei desistindo.
Anos depois, li do começo ao fim, desfrutando cada página da história daquela dupla inusitada: o cavaleiro idealista determinado a transformar a realidade para que se assemelhe à de seus livros e seus sonhos; e o escudeiro pragmático que tenta manter seu mestre na dura realidade para que ele não se perca nas nuvens da fantasia.
Tudo é deslumbrante nesse livro, que simboliza melhor do que qualquer outro a infinita variedade da língua espanhola para expressar a condição humana com todas as nuances, a fantasia que leva o ser humano a transformar a vida. Em outras palavras, a forma como a literatura nos defende da frustração, do fracasso e da mediocridade.
O mundo estreito e provinciano de La Mancha, pelo qual Dom Quixote e Sancho fazem sua peregrinação, pouco a pouco se torna, graças à coragem do determinado cavaleiro andante, um universo de aventuras insólitas, em que se entrelaçam audácia, absurdo e humor, para nos mostrar como a imaginação pode transformar o tédio em aventura e converter o cotidiano em uma peripécia inusitada em que se alternam o maravilhoso, o milagroso, o patético – todos os matizes de que se faz a vida.
Em livro recente, o crítico Santiago Muñoz Machado analisa as biografias mais importantes do escritor Miguel de Cervantes para saber em que sociedade surgiu Dom Quixote*. O leitor da obra de Muñoz Machado encontrará tudo: o aparato jurídico que reinava na Espanha enquanto Cervantes escrevia as aventuras de Dom Quixote, as festas populares, a propagação da feitiçaria, os crimes da Inquisição, a vida elevada dos artistas, a mentalidade militar à sombra da Coroa.*
Cervantes era um homem simples e miserável, aparentemente desde muito jovem. No começo da vida, um crime o leva para a Itália. Como todos os humildes, ele se torna soldado. E guerreia em Lepanto contra os turcos, quando não deveria, por causa de condição de que sofria. E, então, devido a raptores berberiscos, ele passou cinco anos em Argel, onde deve ter sofrido o indescritível, sobretudo depois de suas tentativas de fuga. Padres trinitarianos o salvaram, pagando seu resgate. Na Espanha, tentou ir para a América, mas o Estado sequer respondeu às suas cartas. Ou seja, com ele tudo acontecia de maneira tal que ele poderia muito bem se tornar ressentido. E, no entanto, a generosidade e a hombridade de Cervantes estão mais do que garantidas. Era um homem sem remorso, preocupado em elevar a vida de seus concidadãos. Um homem bom e idealista.
Quando li Dom Quixote*, já havia muito tempo que lia romances de cavalaria, nos quais o formalismo tentava frear os excessos da época. Sob a ferocidade das batalhas, surgiu um mundo de paz e ordem, segundo um plano rígido destinado a acabar com a espontaneidade que mostrava o mundo como ele é: pútrido e irremediável. Será que, depois de tanto sofrer na vida, Cervantes também não tivesse buscado a mesma coisa?*
me confundia com as frases longas e as palavras antigas.
O verbo flexionado nos mesmos tempo e modo do da frase acima está em:
- Apara que ele não se perca nas nuvens da fantasia.
- BEra um homem sem remorso. (alternativa correta)
- Cum universo de aventuras insólitas, em que se entrelaçam audácia, absurdo e humor.
- DO leitor da obra de Muñoz Machado encontrará tudo.
- Eele poderia muito bem se tornar ressentido.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Tempo verbal indica quando a ação acontece (passado, presente, futuro), e modo verbal indica a atitude do falante em relação à ação (certeza, dúvida, ordem). O verbo "confundia" está no Pretérito Imperfeito do Indicativo, que expressa uma ação passada contínua, habitual ou que não foi concluída.
- (A) Incorreta: "perca" está no Presente do Subjuntivo, que expressa desejo, possibilidade ou incerteza, e não uma ação passada contínua como o Pretérito Imperfeito do Indicativo. A armadilha aqui é que a conjunção "que" frequentemente introduz verbos no modo subjuntivo, que tem uma função diferente do indicativo.
- (B) Correta: "Era" está no Pretérito Imperfeito do Indicativo, assim como "confundia", indicando uma ação passada contínua ou habitual.
- (C) Incorreta: "entrelaçam" está no Presente do Indicativo, que expressa uma ação que ocorre no momento atual ou é habitual, mas não no passado.
- (D) Incorreta: "encontrará" está no Futuro do Presente do Indicativo, que expressa uma ação que ocorrerá no futuro.
- (E) Incorreta: "poderia" está no Futuro do Pretérito do Indicativo, que expressa uma ação futura em relação a um ponto no passado ou uma hipótese.
Fonte: FCC TRT4 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico Área Apoio Especializado TRT4 2022) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.