Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT4 2022 (nº 9)
Atenção: Para responder às questões de números 01 a 10, considere um trecho do romance Quincas Borba, de Machado de Assis.
Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
– Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...
Que abismo que há entre o espírito e o coração! O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento, arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham, arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não casasse; podia vir um filho ou uma filha... – Bonita canoa! – Antes assim! – Como obedece bem aos remos do homem! – O certo é que eles estão no Céu!
Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, um Mefistófeles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja, – primor de argentaria, execução fina e acabada.
(Machado de Assis. Quincas Borba. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)
Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. (4º parágrafo)
Os termos sublinhados referem-se, respectivamente, a
- A"açúcar" e "bandeja".
- B"Rubião" e "prata lavrada".
- C"Rubião" e "bandeja".
- D"xícara" e "prata lavrada".
- E"xícara" e "bandeja". (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A referenciação é um mecanismo de coesão textual que usa elementos (como pronomes) para se referir a outros termos já mencionados ou que serão mencionados, evitando repetições e conectando as ideias.
- (A) Incorreta: O pronome "lhe" não se refere a "açúcar"; o açúcar é o que está sendo deitado.
- (B) Incorreta: O pronome "lhe" não se refere a "Rubião" (que é o sujeito da ação de deitar), e "que" não se refere a "prata lavrada" (que é a característica da bandeja, não o objeto em si).
- (C) Incorreta: O pronome "lhe" não se refere a "Rubião".
- (D) Incorreta: Embora "lhe" se refira corretamente a "xícara", o pronome "que" não se refere a "prata lavrada", mas sim ao objeto que é feito de prata lavrada.
- (E) Correta: O pronome "lhe" (objeto indireto) refere-se à xícara, pois é nela que o açúcar é deitado ("deitava açúcar na xícara"). O pronome relativo "que" refere-se à bandeja, introduzindo uma oração que descreve a bandeja ("a bandeja, a qual era de prata lavrada"). A armadilha para "lhe" é pensar que sempre se refere a pessoas, mas aqui é um objeto inanimado que recebe a ação.
Fonte: FCC TRT4 2022 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Engenharia (Civil) (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.