Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 2)
A independência política em 1822 não trouxe muitas novidades em termos institucionais, mas consolidou um objetivo claro, qual seja: estruturar e justificar uma nova nação. A tarefa não era pequena e quem a assumiu foi o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), que, aberto em 1838, no Rio de Janeiro, logo deixaria claras suas principais metas: construir uma história que elevasse o passado e que fosse patriótica nas suas proposições, trabalhos e argumentos. Para referendar a coerência da filosofia que inaugurou o IHGB, basta prestar atenção no primeiro concurso público por lá organizado. Em 1844, abriam-se as portas para os candidatos que se dispusessem a discorrer sobre uma questão espinhosa: "Como se deve escrever a história do Brasil". Tratava-se de inventar uma nova história do e para o Brasil. Foi dado, então, um pontapé inicial, e fundamental, para a disciplina que chamaríamos, anos mais tarde, e com grande naturalidade, de "História do Brasil". A singularidade da competição também ficou associada a seu resultado e à divulgação do nome do vencedor. O primeiro lugar, nessa disputa histórica, foi para um estrangeiro − o conhecido naturalista bávaro Karl von Martius (1794-1868), cientista de ilibada importância, embora novato no que dizia respeito à história em geral e àquela do Brasil em particular −, o qual advogou a tese de que o país se definia por sua mistura, sem igual, de gentes e povos. Utilizando a metáfora de um caudaloso rio, correspondente à herança portuguesa que acabaria por "limpar" e "absorver os pequenos confluentes das raças índia e etiópica", representava o país a partir da singularidade e dimensão da mestiçagem de povos por aqui existentes. A essa altura, porém, e depois de tantos séculos de vigência de um sistema violento como o escravocrata, era no mínimo complicado simplesmente exaltar a harmonia. Além do mais, indígenas continuavam sendo dizimados no litoral e no interior do país. Martius, que em 1832 havia publicado um ensaio chamado "O estado do direito entre os autóctones no Brasil", condenando os indígenas ao desaparecimento, agora optava por definir o país por meio da redentora metáfora fluvial. Três longos rios resumiriam a nação: um grande e caudaloso, formado pelas populações brancas; outro um pouco menor, nutrido pelos indígenas; e ainda outro, mais diminuto, alimentado pelos negros. Ali estavam, pois, os três povos formadores do Brasil; todos juntos, mas (também) diferentes e separados. Mistura não era (e nunca foi) sinônimo de igualdade. Essa era uma ótima maneira de "inventar" uma história não só particular (uma monarquia tropical e mestiçada) como também muito otimista: a água que corria representava o futuro desse país constituído por um grande rio caudaloso no qual desaguavam os demais pequenos afluentes. É possível dizer que começava a ganhar força então a ladainha das três raças formadoras da nação, que continuaria encontrando ampla ressonância no Brasil, pelo tempo afora.
A "metáfora fluvial" criada por Karl von Martius
- Atransmite uma imagem de convivência pacífica entre brancos, negros e índios na formação do país. (alternativa correta)
- Brepresenta a redenção dos índios e dos negros, eximindo-os da responsabilidade pelas revoltas que organizaram ao longo dos anos.
- Capresenta rios caudalosos que atravessam o país e facilitam o desenvolvimento econômico e a formação de cidades.
- Ddestaca o rio que representa os negros como o maior entre os três, pois essa era a população mais numerosa.
- Eregistra de forma fiel a violência contra negros e índios, porque os dois rios que os representam têm volume pouco significativo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A metáfora é uma figura de linguagem que consiste em usar uma palavra ou expressão no lugar de outra, sem que haja uma comparação explícita, mas com base em uma relação de semelhança entre elas, para criar um sentido figurado.
- (A) Correta: A metáfora de Martius, ao descrever a nação como um grande rio formado pela confluência de diferentes povos, mesmo que hierarquicamente, buscava apresentar uma visão otimista e de união, sugerindo uma integração e convivência pacífica na formação do Brasil, apesar da realidade violenta que o texto critica.
- (B) Incorreta: O texto não associa a metáfora à redenção de índios e negros ou à isenção de responsabilidade por revoltas; o foco é na definição da nação pela mistura.
- (C) Incorreta: A metáfora é sobre a mistura de povos e raças na formação da nação, não sobre rios geográficos que facilitam o desenvolvimento econômico ou a formação de cidades.
- (D) Incorreta: O texto afirma explicitamente que o rio que representava os negros era o "mais diminuto", e não o maior.
- (E) Incorreta: Armadilha da banca: Embora o texto mencione a violência e o volume reduzido dos rios de negros e índios, a metáfora de Martius não tinha como objetivo registrar fielmente essa violência. Pelo contrário, o autor do texto critica a metáfora por ser "muito otimista" e por "exaltar a harmonia" em um contexto de violência, o que significa que a metáfora mascarava a violência, em vez de registrá-la.
Fonte: FCC TRT22 2022 Técnico Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.