Questão nº 12

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 12)

FCC2022Analista Judiciário - Área JudiciáriaLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

Na década de 1880, Machado de Assis publicou cerca de oitenta contos, numa espantosa explosão de criatividade, que também rendeu seu primeiro grande romance, Memórias póstumas de Brás Cubas (1880).

Como isso aconteceupor que aconteceu, e por que nesse momento? Nada é mais difícil de explicar do que a explosão de um gênio criadore não devemos duvidar que é disso que se trata. Contos podem parecer fáceis, escritos algo apressadamente como uma espécie de subproduto de um trabalho mais sério ou até como sintomas de uma incapacidade passageira de empreender “obras de maior tomo” (palavras de Dom Casmurro), mas nada está mais longe da verdade. Contos não são romances imperfeitosexistem com seus direitos próprios, e quando Machado começou a escrever os seus melhores, o gênero estava conquistando uma nova dignidade.

O traço mais importante de seus contos é a ironia, com frequência fixada por um estilo que muitas vezes emprega certo registro de linguagem a fim de estabelecer, desde a primeira palavra, que nada ali é para ser levado inteiramente a sério, que aquilo não é a fala direta do autor: “A coisa mais árdua do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de Dona Benedita”. Machado podia parodiar qualquer tipo de linguagem, da Bíblia à dos jornais (essa, de fato, era a que satirizava com mais frequência). No começo dos anos 1880, Machado não só estabelecera seu direito a falar do universo, mas também principiara a fazer o retrato da sociedade brasileira sob uma luz inteiramente nova. Os romances bem-educados dos anos 1870, que elevavam a vida social, deram lugar à sátira selvagem de Memórias póstumas de Brás Cubas*, que mostrava realidades* − adultério, prostituição, escravatura, o tratamento dado aos agregadoscom uma nitidez e uma cólera inteiramente impossíveis alguns anos antes.

Uma coisa é certa: a expansão do material possível de Machado e o distanciamento irônico que ele adota são inseparáveis. Digamos assim: se ele não tivesse encontrado modos dos mais variados (irônicos, sarcásticos, mas sempre semiocultos) de se expressar a respeito de coisas sobre as quais não devia falar, ou às quais só podia se referir de soslaio, suas histórias jamais teriam existido; podemos sentir sua satisfação quando se aproxima de outra questão espinhosa e acaba encontrando novas maneiras de falar sobre coisas demasiado embaraçosas para mencionar diretamente. Na minha opinião, isso ajuda a explicar o êxito de seus contosMachado caminhava no fio da navalha.


Está correta a redação do seguinte comentário:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

A "redação" de um texto refere-se à sua correção gramatical, clareza e adequação à norma culta da língua portuguesa. Isso inclui concordância verbal e nominal, regência, pontuação, uso correto de pronomes e tempos verbais.

  • (A) Incorreta: A expressão "o qual se contam histórias" está incorreta. O pronome relativo "o qual" deveria ser precedido de preposição, formando "no qual se contam histórias" ou "em que se contam histórias", para indicar o lugar ou meio onde as histórias são contadas.
  • (B) Incorreta: O verbo "caber" deveria estar no singular: "Não cabe aos leitores imaginar...". Quando o sujeito é uma oração subordinada substantiva (neste caso, "imaginar que seja mais fácil..."), o verbo principal deve permanecer no singular.
  • (C) Incorreta: Há dois erros de concordância. O verbo "Causam" deveria estar no singular ("Causa") para concordar com o sujeito "a ironia afiada". Além disso, o verbo "dispõe" deveria estar no plural ("dispõem") para concordar com "aqueles".
  • (D) Incorreta: A vírgula após "Assis" está incorreta, pois separa o sujeito ("um escritor do calibre de Machado de Assis") do seu verbo ("encontra"). A expressão "com que se expressarem" também é inadequada; o correto seria "com que se expressar" (infinitivo impessoal) ou "com as quais se expressar".
  • (E) Correta: A frase está gramaticalmente correta. A concordância verbal ("encontra" com "justificativa") está adequada, o uso do pronome "se" (como índice de indeterminação do sujeito ou partícula apassivadora) está correto, e a construção "que não seja" está bem empregada, com o verbo no subjuntivo indicando exceção.

Fonte: FCC TRT22 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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