Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 7)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 7, baseie-se no texto abaixo.
A viagem dos elefantes
Hoje quero falar sobre elefantes. Sei que a morte epidêmica cobre o mundo de sombras, sei que há desmandos, arbítrio, horror, que tudo isso merece nossa máxima atenção, mas peço licença para falar sobre elefantes. Não do elefante em sua carnadura genérica, não da nossa incerta ideia de elefante, isso não. O que cativa no momento minha concentração são elefantes específicos, quinze indivíduos-elefantes que fugiram de sua reserva natural e agora vagueiam por populosas províncias chinesas causando pasmo e sobressalto. Vagueiam há mais de um ano sem rumo e sem razão, até onde sabemos, mas é certo que nunca bem compreendemos a razão dos elefantes. “Entre falar e calar, um elefante sempre preferirá o silêncio”, já previu Saramago.
A notícia poderia se confundir com um desses acontecimentos frívolos que insistem em atravessar nossos graves e sérios, uma dessas histórias insólitas que nos distraem e nos alienam − e, sim, é bem capaz que não passe disso. Mas se destilo aqui algumas frases a respeito, é por achar que podemos sorver mais, que nesse caso pode haver algo de delicado e surpreendente a nos nutrir. Ou então por guardar a convicção, na esteira do grande crítico Auerbach, de que “qualquer acontecimento, se for possível exprimi-lo limpo e integralmente, interpretaria por inteiro a si próprio e aos seres humanos que dele participassem”, sendo esse um dos fins últimos da literatura. Aí está, na falta da razão dos elefantes encontrei a minha: escrevo sobre eles porque talvez possam dizer algo sobre nós, sobre nossa vontade de fugir, nossa ânsia por liberdade, dispersão, desterro.
Menos que fugir, esses elefantes exploram novos mundos, aventuram-se em novos territórios. São capazes de pisar o desconhecido sem achar que tudo sabem de partida, que não haverá nada para ver na próxima pradaria, nada que não resulte temível ou doentio. O mundo é ainda franco e aberto aos elefantes, o mundo é para eles o que talvez tenha chegado a ser para nós, em dia longínquo, prenhe de futuro. Têm ainda uma chance os elefantes, é isso o que descubro, é isso o que invejo ao vê-los vagar, entendendo enfim meu interesse excessivo.
(Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 103-106, passim)
No 2º parágrafo, o segmento é bem capaz que não passe disso pode ser substituído, sem prejuízo para a correção e o sentido da frase em que se encontra, por:
Atenção: Para responder às questões de números 8 a 13, baseie-se no texto abaixo.
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6.
- Aprovavelmente isso tem mais alcance.
- Bquem sabe ainda vá um pouco além.
- Coxalá não pretenda mais que isso.
- Dé possível que mais não seja. (alternativa correta)
- Eé aceitável que nada ultrapasse.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Para substituir uma expressão mantendo o sentido, é preciso encontrar uma frase que transmita a mesma ideia, tanto em seu significado principal quanto em sua nuance (como probabilidade, certeza, desejo, etc.), sem alterar a correção gramatical.
- (A) Incorreta: "provavelmente isso tem mais alcance" contradiz o sentido de limitação ("não passe disso"), pois "mais alcance" significa ir além do que foi dito.
- (B) Incorreta: "quem sabe ainda vá um pouco além" também contradiz o sentido de limitação ("não passe disso"), pois "vá um pouco além" significa ir além do que foi dito. Esta é uma armadilha comum, pois "quem sabe" expressa possibilidade, mas o restante da frase inverte o sentido de limitação.
- (C) Incorreta: "oxalá não pretenda mais que isso" muda a nuance da frase, pois "oxalá" expressa um desejo ou esperança, e não uma probabilidade, como no original.
- (D) Correta: "é possível que mais não seja" mantém tanto a ideia de probabilidade ("é possível que" ~ "é bem capaz que") quanto a de limitação ("mais não seja" ~ "não passe disso", ou seja, não seja mais do que aquilo).
- (E) Incorreta: "é aceitável que nada ultrapasse" muda a nuance da frase, pois "é aceitável que" expressa permissão ou aceitação, e não uma probabilidade.
Fonte: FCC TRT22 2022 Analista Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.