Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 5)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 7, baseie-se no texto abaixo.
A viagem dos elefantes
Hoje quero falar sobre elefantes. Sei que a morte epidêmica cobre o mundo de sombras, sei que há desmandos, arbítrio, horror, que tudo isso merece nossa máxima atenção, mas peço licença para falar sobre elefantes. Não do elefante em sua carnadura genérica, não da nossa incerta ideia de elefante, isso não. O que cativa no momento minha concentração são elefantes específicos, quinze indivíduos-elefantes que fugiram de sua reserva natural e agora vagueiam por populosas províncias chinesas causando pasmo e sobressalto. Vagueiam há mais de um ano sem rumo e sem razão, até onde sabemos, mas é certo que nunca bem compreendemos a razão dos elefantes. “Entre falar e calar, um elefante sempre preferirá o silêncio”, já previu Saramago.
A notícia poderia se confundir com um desses acontecimentos frívolos que insistem em atravessar nossos graves e sérios, uma dessas histórias insólitas que nos distraem e nos alienam − e, sim, é bem capaz que não passe disso. Mas se destilo aqui algumas frases a respeito, é por achar que podemos sorver mais, que nesse caso pode haver algo de delicado e surpreendente a nos nutrir. Ou então por guardar a convicção, na esteira do grande crítico Auerbach, de que “qualquer acontecimento, se for possível exprimi-lo limpo e integralmente, interpretaria por inteiro a si próprio e aos seres humanos que dele participassem”, sendo esse um dos fins últimos da literatura. Aí está, na falta da razão dos elefantes encontrei a minha: escrevo sobre eles porque talvez possam dizer algo sobre nós, sobre nossa vontade de fugir, nossa ânsia por liberdade, dispersão, desterro.
Menos que fugir, esses elefantes exploram novos mundos, aventuram-se em novos territórios. São capazes de pisar o desconhecido sem achar que tudo sabem de partida, que não haverá nada para ver na próxima pradaria, nada que não resulte temível ou doentio. O mundo é ainda franco e aberto aos elefantes, o mundo é para eles o que talvez tenha chegado a ser para nós, em dia longínquo, prenhe de futuro. Têm ainda uma chance os elefantes, é isso o que descubro, é isso o que invejo ao vê-los vagar, entendendo enfim meu interesse excessivo.
(Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 103-106, passim)
As normas de concordância estão plenamente observadas na frase:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 6, questão nº 7.
- APodem-se extrair várias sugestões da viagem desses elefantes, que deixa entrever lições preciosas da natureza. (alternativa correta)
- BNenhum desses acontecimentos frívolos impedem que lhes sejam atribuídos um sentido simbólico.
- CA falta de razão para as viagens dos elefantes aparentemente sem rumo em nada obstam que o cronista as interprete.
- DAo se atirar na direção de novos mundos, os elefantes tem demonstrado sua fé nas surpresas do caminho.
- ENão caberiam aos leitores concluir que o movimento dos elefantes apenas atendem a imperativos da natureza?
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Concordância verbal é a regra que faz o verbo (a ação) combinar em número (singular/plural) e pessoa (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) com o seu sujeito (quem pratica a ação). Concordância nominal é a regra que faz os nomes (substantivos, adjetivos, artigos, pronomes, numerais) combinarem em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural) entre si.
- (A) Correta: "Podem-se extrair" está correto porque "várias sugestões" é o sujeito paciente (podem ser extraídas), exigindo o verbo no plural. "que deixa entrever" está correto porque o "que" retoma "viagem desses elefantes" (singular), exigindo o verbo no singular. A concordância nominal ("lições preciosas") também está perfeita.
- (B) Incorreta: "Nenhum desses acontecimentos frívolos impedem" está errado; o correto seria "impede", pois o núcleo do sujeito é "Nenhum" (singular). Além disso, "sejam atribuídos um sentido simbólico" está errado; o correto seria "seja atribuído", pois "um sentido simbólico" é o sujeito de "seja atribuído" (singular). Armadilha: A presença de "acontecimentos" no plural pode levar a erro na primeira parte, e a inversão do sujeito ("um sentido simbólico") na segunda parte pode confundir.
- (C) Incorreta: "A falta de razão... obstam" está errado; o correto seria "obsta", pois o núcleo do sujeito é "falta" (singular).
- (D) Incorreta: "os elefantes tem demonstrado" está errado; o correto seria "têm" (com acento circunflexo), pois o sujeito "os elefantes" está no plural.
- (E) Incorreta: "Não caberiam aos leitores concluir" está errado; o correto seria "caberia", pois a oração "concluir que o movimento..." funciona como sujeito oracional, que é singular. Além disso, "o movimento dos elefantes apenas atendem" está errado; o correto seria "atende", pois o núcleo do sujeito é "movimento" (singular).
Fonte: FCC TRT22 2022 Analista Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.