Questão nº 11
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT20 2024 (nº 11)
Poesia e ciência
É comum se dizer que poucas atividades criativas são tão antagônicas quanto a poesia e a ciência. Enquanto uma expressa uma visão subjetiva e emocional do mundo, a outra expressa uma visão universal e racional. Enquanto uma é produto de inspiração e lirismo, a outra o é de dedução e análise. A obra de certos poetas, no entanto, além de extremamente técnica, mostra uma profunda apreciação da visão científica prevalecente na época.
Como exemplo, tenho em mente o poeta romano Lucrécio, que viveu aproximadamente entre 96 e 55 a.C. Em um mundo completamente dominado por religiões politeístas, baseadas em ritos pagãos, a voz de Lucrécio soa como uma verdadeira luz nas trevas, uma proclamação contra o medo criado pela ignorância e pela obediência cega à autoridade. O poeta convida seus leitores a olhar para o mundo e seus mistérios através da razão, argumentando que esse é o único caminho para a nossa liberação. Eis um exemplo, livremente parafraseado:
“Quando a vida humana, arrastando-se pela Terra, era esmagada pelas crendices, um homem grego pela primeira vez alçou bravamente seus olhos mortais contra esses tormentos [...] Sua força era a mente, que ele usou para explorar a vasta imensidão do espaço, trazendo-nos novas do que é ou não é possível, limites ou fronteiras forjadas para sempre. As crendices, assim, foram controladas e, desde então, nós podemos alcançar as estrelas”.
Dois mil anos após serem escritos, os versos de Lucrécio ecoam com incrível modernidade. Na passagem de mais um milênio*, quando muitos sentem-se vulneráveis perante as várias profecias apocalípticas, sugiro uma nova leitura de Lucrécio, poeta da ciência e da lucidez apaixonada.
* Este texto foi publicado em 1999.
No 2º parágrafo, o nome do poeta romano Lucrécio é invocado para demonstrar que
- Aa cega obediência às autoridades inibe os cientistas na hora de reconhecer o encanto próprio da poesia.
- Buma verdadeira luz nas trevas do mundo nem sempre dispensa o poder das religiões politeístas.
- Cos ritos pagãos existem para combater o medo irracional do qual nem mesmo os cientistas estão isentos.
- Do caminho exclusivo para a liberação do homem só se abre quando a ciência recorre ao poder da poesia.
- Ea poesia pode se valer de uma iluminação racional que afugenta a ignorância e o medo. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O conceito-chave aqui é entender o propósito de um exemplo em um texto. O autor apresenta um argumento geral e, em seguida, usa um exemplo específico para ilustrar e reforçar esse argumento. No caso, Lucrécio é o exemplo que demonstra a capacidade da poesia de incorporar a razão e combater a ignorância.
- (A) Incorreta: O texto não aborda a inibição de cientistas, mas sim a capacidade de um poeta de usar a razão contra a ignorância e a obediência cega.
- (B) Incorreta: O texto afirma que a voz de Lucrécio é uma "luz nas trevas" contra as religiões politeístas e o medo que elas criavam, e não que as dispensa ou as utiliza.
- (C) Incorreta: Os ritos pagãos são apresentados como geradores de "medo criado pela ignorância", e não como algo que o combate. Lucrécio luta contra eles.
- (D) Incorreta: Esta alternativa inverte a relação. O texto mostra um poeta (Lucrécio) que usa a razão (associada à ciência) para a liberação, e não que a ciência precisa da poesia para se abrir. A ênfase é na poesia que se vale da racionalidade.
- (E) Correta: O texto usa Lucrécio, um poeta, como exemplo de alguém que, através da razão ("mente", "olhar para o mundo e seus mistérios através da razão"), combateu as "crendices", a "ignorância" e o "medo", agindo como uma "luz nas trevas". Isso demonstra que a poesia pode ter um caráter racional e esclarecedor.
Fonte: FCC TRT20 2024 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.