Questão nº 11
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT17 2022 (nº 11)
Atenção: Leia um trecho da crônica "O Risadinha", de Paulo Mendes Campos, para responder às questões de números 1 a 13.
1. Seria melhor dizer que ele [Risadinha] não teve infância. Mas não é verdade. Eu o conheci menino, trepando às árvores, armando alçapão para canários-da-terra, bodoqueando¹ as rolinhas, rolando pneu velho pelas ruas, pegando traseira de bonde, chamando o professor Asdrúbal de Jaburu. Foi este último um dos mais divertidos e perigosos brinquedos da nossa infância: o velho corria atrás da gente brandindo a bengala, seus bastos bigodes amarelos fremindo sob as ventas vulcânicas.
2. Nestor, em suma, teve a meninice normal de um filho de funcionário público em nosso tempo, tempo incerto, pois os recursos da Fazenda na província eram magros, e os pagamentos se atrasavam, enervando a população.
3. Seus companheiros talvez nem soubessem que se chamasse Nestor; era para todos o Risadinha. Falava pouco e ria muito, um riso de fato diminutivo, nascido de reservados solilóquios, quase sempre extemporâneo. Certa feita, na aula de francês, quando entoávamos em coro o presente do subjuntivo do verbo s'en aller*, Risadinha pespegou uma bólide de papel bem na ponta do nariz do professor, que era muito branco, pedante a capricho e tinha o nome de Demóstenes. O rosto do mestre passou do pálido ao rubro das suas tremendas cóleras. Um dos seus prazeres, sendo-lhe vetado por lei castigar-nos com o bastão, era desfiar em cima do culpado uma série de insultos preciosos, que ele ia escandindo um por um, sem pressa e com ódio.*
4. − Levante-se, seu Nestor! Sa-cri-pan-ta! Ne-gli-gen-te! Si-co-fan-ta! Tu-nan-te! Man-dri-ão! Ca-la-cei-ro! Pan-di-lha! Bil-tre! Tram-po-lei-ro! Bar-gan-te! Es-troi-na! Val-de-vi-nos! Va-ga-bun-do!...
5. Pegando a deixa da única palavra inteligível, Risadinha erguia o dedo no ar e protestava, com ar ofendido:
6. − Vagabundo, não*,** professor.*
7. Era um artista do cinismo, e sua momice de inocência era de tal arte que até mesmo seu Demóstenes não conseguia conter o riso. Como também somente ele já arrancara uma gargalhada do padre-prefeito, um alemão da altura da catedral de Colônia, num dia em que vinha caminhando lento e distraído, fora de forma.
8. − Por que o senhorrr não está na forma? − perguntou-lhe rosnando o padre, como se estivesse de promotor da Inquisição, diante de um herege horripilante.
9. − É porque estou com meu pezinho machucado, respondeu com doçura o Risadinha.
10. − E por que o senhorrr não está mancando?
11. Risadinha olhou com espanto para os seus próprios pés, começando a mancar vistosamente:
12. − Desculpe, seu padre, é porque eu tinha esquecido.
13. Foi um precursor de Cantinflas² e, a despeito da opinião do leitor, nós lhe achávamos uma graça de doer a barriga.
(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Primeiras leituras: crônicas. São Paulo: Boa companhia, 2012)
₁bodoquear: atirar pedra com estilingue.
₂Cantinflas: nome artístico do humorista mexicano Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes (1911-1993).
ele já arrancara uma gargalhada do padre-prefeito. (7º parágrafo)
Transpondo-se o trecho acima para a voz passiva, a forma verbal resultante será:
- Ateria sido arrancado.
- Bera arrancada.
- Ctinha sido arrancada. (alternativa correta)
- Dteria arrancado
- Efoi arrancada.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Para transformar uma frase da voz ativa para a voz passiva, o objeto direto da voz ativa se torna o sujeito da voz passiva, e o verbo ativo é substituído por um verbo auxiliar (geralmente "ser") conjugado no mesmo tempo e modo do verbo original, seguido do particípio passado do verbo principal.
O verbo "arrancara" está no mais-que-perfeito do indicativo (simples). Em português contemporâneo, é comum que o mais-que-perfeito simples seja substituído pelo mais-que-perfeito composto, que é formado por "ter" ou "haver" no pretérito imperfeito do indicativo mais o particípio passado do verbo principal (ex: "tinha arrancado" ou "havia arrancado"). Para a conversão à voz passiva, consideramos a forma composta equivalente.
A frase na voz ativa é "ele já arrancara uma gargalhada".
Considerando a equivalência moderna, seria como se estivesse "ele já tinha arrancado uma gargalhada".
Para converter "tinha arrancado" (mais-que-perfeito composto) para a voz passiva, usamos "ser" no pretérito imperfeito do indicativo ("tinha") + "sido" + o particípio passado do verbo principal ("arrancada"), concordando com o novo sujeito ("uma gargalhada").
- (A) Incorreta: Esta é a forma passiva do futuro do pretérito composto ("teria arrancado"), um tempo verbal diferente do original.
- (B) Incorreta: Esta é a forma passiva do pretérito imperfeito ("arrancava"), um tempo verbal diferente do original.
- (C) Correta: Esta é a forma passiva do mais-que-perfeito composto ("tinha arrancado"), que é a forma equivalente e mais comum para o mais-que-perfeito simples ("arrancara") na voz passiva em português moderno.
- (D) Incorreta: Esta forma está na voz ativa e no futuro do pretérito composto, não correspondendo à voz passiva nem ao tempo verbal original.
- (E) Incorreta: Esta é a forma passiva do pretérito perfeito simples ("arrancou"), um tempo verbal diferente do original.
Fonte: FCC TRT17 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico - Área Apoio Especializado) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.