Questão nº 3

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT17 2022 (nº 3)

FCC2022Comum Técnico - Área Apoio EspecializadoLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

Atenção: Leia um trecho da crônica "O Risadinha", de Paulo Mendes Campos, para responder às questões de números 1 a 13.

1. Seria melhor dizer que ele [Risadinha] não teve infância. Mas não é verdade. Eu o conheci menino, trepando às árvores, armando alçapão para canários-da-terra, bodoqueando¹ as rolinhas, rolando pneu velho pelas ruas, pegando traseira de bonde, chamando o professor Asdrúbal de Jaburu. Foi este último um dos mais divertidos e perigosos brinquedos da nossa infância: o velho corria atrás da gente brandindo a bengala, seus bastos bigodes amarelos fremindo sob as ventas vulcânicas.

2. Nestor, em suma, teve a meninice normal de um filho de funcionário público em nosso tempo, tempo incerto, pois os recursos da Fazenda na província eram magros, e os pagamentos se atrasavam, enervando a população.

3. Seus companheiros talvez nem soubessem que se chamasse Nestor; era para todos o Risadinha. Falava pouco e ria muito, um riso de fato diminutivo, nascido de reservados solilóquios, quase sempre extemporâneo. Certa feita, na aula de francês, quando entoávamos em coro o presente do subjuntivo do verbo s'en aller*, Risadinha pespegou uma bólide de papel bem na ponta do nariz do professor, que era muito branco, pedante a capricho e tinha o nome de Demóstenes. O rosto do mestre passou do pálido ao rubro das suas tremendas cóleras. Um dos seus prazeres, sendo-lhe vetado por lei castigar-nos com o bastão, era desfiar em cima do culpado uma série de insultos preciosos, que ele ia escandindo um por um, sem pressa e com ódio.*

4.Levante-se, seu Nestor! Sa-cri-pan-ta! Ne-gli-gen-te! Si-co-fan-ta! Tu-nan-te! Man-dri-ão! Ca-la-cei-ro! Pan-di-lha! Bil-tre! Tram-po-lei-ro! Bar-gan-te! Es-troi-na! Val-de-vi-nos! Va-ga-bun-do!...

5. Pegando a deixa da única palavra inteligível, Risadinha erguia o dedo no ar e protestava, com ar ofendido:

6.Vagabundo, não*,** professor.*

7. Era um artista do cinismo, e sua momice de inocência era de tal arte que até mesmo seu Demóstenes não conseguia conter o riso. Como também somente ele já arrancara uma gargalhada do padre-prefeito, um alemão da altura da catedral de Colônia, num dia em que vinha caminhando lento e distraído, fora de forma.

8.Por que o senhorrr não está na forma?perguntou-lhe rosnando o padre, como se estivesse de promotor da Inquisição, diante de um herege horripilante.

9.É porque estou com meu pezinho machucado, respondeu com doçura o Risadinha.

10.E por que o senhorrr não está mancando?

11. Risadinha olhou com espanto para os seus próprios pés, começando a mancar vistosamente:

12.Desculpe, seu padre, é porque eu tinha esquecido.

13. Foi um precursor de Cantinflas² e, a despeito da opinião do leitor, nós lhe achávamos uma graça de doer a barriga.

(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Primeiras leituras: crônicas. São Paulo: Boa companhia, 2012)

₁bodoquear: atirar pedra com estilingue.

₂Cantinflas: nome artístico do humorista mexicano Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes (1911-1993).


A hipérbole consiste no exagero da expressão de uma ideia (por exemplo: morrer de estudar, estourar de rir etc). Ocorre esse recurso expressivo no seguinte trecho:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

A hipérbole é uma figura de linguagem que consiste no exagero intencional de uma ideia ou situação para enfatizar algo, criar um efeito dramático ou humorístico, sem que a afirmação seja interpretada literalmente.

(A) Incorreta: Descreve uma reação natural de espanto, sem qualquer exagero.
(B) Incorreta: É uma descrição factual da condição social do personagem, sem hipérbole.
(C) Incorreta: Descreve uma ação e uma expressão facial comuns, sem exagero.
(D) Incorreta: "Diminutivo" aqui se refere à natureza do riso (pequeno, contido, discreto), e não a um exagero de seu tamanho físico, que seria o oposto de uma hipérbole de magnitude.
(E) Correta: Comparar a altura de uma pessoa à de uma catedral é um exagero óbvio e intencional, pois nenhuma pessoa pode ter literalmente a altura de um edifício tão grande, caracterizando perfeitamente a hipérbole.

Fonte: FCC TRT17 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico - Área Apoio Especializado) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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