Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 6)
Os deuses da cidade
Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão. Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.
A comparação da cidade com uma máquina é, ao mesmo tempo, pertinente e desviante. Pertinente porque uma cidade vive na medida em que funciona, isso é, em que serve para se viver nela e para fazer viver. Desviante porque, diferentemente das máquinas, que são criadas com vistas a uma determinada função, as cidades são todas ou quase todas o resultado de adaptações sucessivas a funções diferentes, não previstas por sua fundação anterior (penso nas cidades italianas com sua história de séculos ou de milênios).
Mais do que com a máquina, é a comparação com o organismo vivo na evolução da espécie que pode nos dizer alguma coisa importante sobre a cidade: como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades. E não podemos esquecer que na história da evolução toda espécie carrega consigo características que parecem de outras eras, na medida em que já não correspondem a necessidades vitais, mas que talvez um dia, em condições ambientais transformadas, serão as que salvarão a espécie da extinção. Assim a força da continuidade de uma cidade pode consistir em características e elementos que hoje parecem prescindíveis, porque esquecidos ou contraditos por seu funcionamento atual.
Os antigos representavam o espírito de uma cidade com aquele tanto de vago e aquele tanto de preciso que essa operação implica, evocando os nomes dos deuses que presidiram sua fundação: nomes que equivalem a personificações de posturas vitais do comportamento humano e que tinham de garantir a vocação profunda da cidade. Uma cidade pode passar por catástrofes e anacronismos, ver estirpes diferentes sucedendo-se em suas casas, ver suas casas mudarem cada pedra, mas deve, no momento certo, sob formas diferentes, reencontrar os próprios deuses.
(Adaptado de CALVINO, Ítalo. Assunto encerrado. Trad. Roberta Barni. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 333-336, passim)
As normas de concordância verbal estão plenamente observadas na frase:
- AEvocava-se, entre os antigos, os nomes dos deuses a que deveriam cultuar cada cidade.
- BEm nada contribui para a visão de uma cidade os fatores que já condicionaram nosso olhar.
- CNão importa para quem queira conhecer de fato uma cidade as cristalizações já incorporadas.
- DConstituem-se ao mesmo tempo uma visão pertinente e uma visão desviante de uma cidade. (alternativa correta)
- ECostumam adaptar-se aos critérios da evolução o organismo das criaturas de cada espécie.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A concordância verbal é a regra gramatical que exige que o verbo (a palavra que indica ação, estado ou fenômeno) se ajuste em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) ao seu sujeito (quem pratica ou sofre a ação).
- (A) Incorreta: A frase apresenta dois erros de concordância. Primeiro, "Evocava-se" deveria ser "Evocavam-se", pois o sujeito paciente é "os nomes dos deuses" (plural). Segundo, "deveriam cultuar" deveria ser "devia cultuar", pois o sujeito é "cada cidade" (singular).
- (B) Incorreta: O verbo "contribui" está no singular, mas o sujeito da oração é "os fatores que já condicionaram nosso olhar" (plural). O correto seria "Em nada contribuem para a visão de uma cidade os fatores...". A armadilha da banca aqui é a inversão da ordem sintática (sujeito posposto ao verbo), que pode levar o leitor a concordar com o termo mais próximo ("cidade", singular) em vez do sujeito real ("fatores", plural).
- (C) Incorreta: O verbo "importa" está no singular, mas o sujeito da oração é "as cristalizações já incorporadas" (plural). O correto seria "Não importam para quem queira conhecer de fato uma cidade as cristalizações...". Assim como na alternativa B, a banca usa a inversão do sujeito para confundir.
- (D) Correta: O verbo "Constituem-se" está no plural, concordando corretamente com o sujeito composto "uma visão pertinente e uma visão desviante de uma cidade" (que, por ser composto, exige o verbo no plural). A partícula "se" atua como pronome apassivador, e o sujeito paciente é "uma visão pertinente e uma visão desviante".
- (E) Incorreta: A locução verbal "Costumam adaptar-se" está no plural, mas o sujeito da oração é "o organismo das criaturas de cada espécie" (singular, pois o núcleo do sujeito é "organismo"). O correto seria "Costuma adaptar-se aos critérios da evolução o organismo...". A armadilha aqui é a presença de palavras no plural ("criaturas", "espécie") que podem desviar a atenção do núcleo do sujeito singular.
Fonte: FCC TRT15 2024 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Engenharia (Elétrica) (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.