Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT14 2022 (nº 2)
Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.
Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: − amor da glória.
Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição. Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.
(ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te. (1º parágrafo)
No trecho acima, ao descrever uma ideia que lhe surgiu, o autor recorre, predominantemente, à seguinte figura de linguagem:
- Aeufemismo.
- Bhipérbole.
- Cpersonificação. (alternativa correta)
- Dpleonasmo.
- Eantítese.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Personificação (ou prosopopeia) é a figura de linguagem que atribui características, ações ou sentimentos humanos a seres inanimados, animais ou conceitos abstratos.
- (A) Incorreta: Eufemismo é o uso de uma expressão mais suave para amenizar uma ideia desagradável, o que não ocorre no trecho.
- (B) Incorreta: Hipérbole é o exagero intencional de uma ideia para enfatizar algo, e embora haja vivacidade na descrição, a figura predominante não é o exagero, mas sim a atribuição de características humanas.
- (C) Correta: O trecho atribui à "ideia" (um conceito abstrato) ações e características humanas, como "pendurar-se", "bracejar", "pernear", "fazer cabriolas", "dar um salto", "estender os braços e as pernas" e até "falar" ("decifra-me ou devoro-te"), configurando claramente a personificação.
- (D) Incorreta: Pleonasmo é a repetição de termos com o mesmo sentido para reforçar uma ideia, o que não se verifica no texto.
- (E) Incorreta: Antítese é a aproximação de palavras ou ideias de sentidos opostos, e o trecho não apresenta esse contraste.
Fonte: FCC TRT14 2022 Conhecimentos Comuns (Analista Administrativo e Tecnologia da Informação TRT14 2022) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.