Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-14 2018 (nº 5)
Permita-me uma pergunta um tanto primária para começar: você defende o silêncio como forma de resistência, mas de onde nasce o ruído? − Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século XX como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica. Neste contexto, o silêncio implica uma forma de resistência, uma maneira para manter a salvo uma dimensão interior frente às agressões externas. O silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio a visibiliza, enquanto o ruído a esconde. Outra maneira de nos conectarmos com o nosso interior é o caminhar, que transcorre no mesmo silêncio. O maior problema, provavelmente, é que a comunicação eliminou os mecanismos próprios da conversação e se tornou altamente utilitarista com base nos dispositivos portáteis.
O que você responderia a quem sustentasse que o silêncio é uma confissão de ignorância? − O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento. Nesse sentido, tradições como a cristã, em que o silêncio é muito importante, tornam-se reveladoras: a sabedoria dirige-se a compreender o que não se pode dizer, o que transcende a linguagem. Nessa mesma tradição, o silêncio é uma via de aproximação de Deus, o que também se pode interpretar como um conhecimento. Podemos utilizar o silêncio para nos conhecermos melhor, para nos distanciarmos do ruído. E este é um valor a reivindicar no presente.
É por essa qualidade de resistência que se tacha de louco quem caminha sem rumo? Sim, é o que acontece. E por isso o caminhar, como o silêncio, é uma forma de resistência política. No momento de sair de casa, de movimentar-se, você de imediato se vê diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente para onde você deve ir, por qual caminho e por qual meio. Caminhar porque sim, eliminando da prática qualquer tipo de apreciação útil, com uma intenção decidida de contemplação, implica uma resistência contra esse utilitarismo e, ocasionalmente, também contra o racionalismo, que é o seu principal benfeitor. A marcha permite advertir como é bonita a Catedral, como é brincalhão o gato que se esconde por ali, as cores do pôr do sol, sem qualquer finalidade, porque toda sua finalidade é esta: a contemplação do mundo. Frente a um utilitarismo que concebe o mundo como um meio para a produção, o caminhante assimila o mundo que as cidades contêm como um fim em si mesmo. E isso, claro, é contrário à lógica imperante. Daí a vinculação com a loucura.
(Entrevista de Pablo B. Málaga com David le Breton. Trad. de Sílvio Diogo. Disponível em: https://www.pensarcontemporaneo.com)
...de onde nasce o ruído? – Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico... (1º parágrafo)
A correta alteração do discurso direto para o indireto das frases acima, mantendo-se, em linhas gerais, o sentido, encontra-se em:
- APerguntado de onde nasce o ruído, David le Breton afirmaria que boa parte de nossa relação com o ruído tinha procedido do desenvolvimento tecnológico.
- BÀ pergunta a própósito de onde nasceria o ruído, o entrevistado respondeu que boa parte de nossa relação com o ruído seria procedente do desenvolvimento tecnológico. (alternativa correta)
- CDavid le Breton, tendo-se questionado de onde nasceria o ruído, responderia que boa parte de nossa relação consigo procede do desenvolvimento tecnológico.
- DResponde à pergunta sobre aonde nasce o ruído, o entrevistado que afirma que sua relação com o mesmo procede do desenvolvimento tecnológico.
- EQuestionado, David le Breton responde sobre a origem do ruído, cuja boa parte de nossa relação procede do desenvolvimento tecnológico.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
O discurso indireto narra a fala de alguém sem reproduzi-la literalmente, adaptando os tempos verbais, pronomes e advérbios para se adequar ao contexto da narração. A principal mudança ocorre nos verbos: se o verbo que introduz o discurso indireto está no passado (como "perguntou", "respondeu", "disse"), os verbos da fala original também devem ser alterados para tempos verbais correspondentes no passado ou futuro do pretérito.
(A) Incorreta: O verbo "nasce" não foi alterado para o tempo verbal adequado no discurso indireto. Além disso, "afirmaria" e "tinha procedido" não formam uma sequência temporal ideal para a resposta, sendo "seria procedente" mais natural.
(B) Correta: A alternativa realiza as alterações verbais corretamente. "Nasce" (presente) é transformado em "nasceria" (futuro do pretérito) para a pergunta, e "procede" (presente) é transformado em "seria procedente" (futuro do pretérito do verbo "ser" + adjetivo), adequando-se ao verbo introdutório "respondeu" (pretérito perfeito).
(C) Incorreta: A expressão "tendo-se questionado" está incorreta, pois a pergunta foi feita a David le Breton, não por ele. O pronome "consigo" também está mal empregado, e o verbo "procede" não foi alterado para o tempo verbal correspondente.
(D) Incorreta: Os verbos "responde", "nasce", "afirma" e "procede" estão todos no presente, o que não é adequado para relatar um evento (a entrevista) que já ocorreu. A preposição "aonde" também está mal empregada; o correto seria "de onde" ou "sobre onde".
(E) Incorreta: O verbo "responde" está no presente, o que é inadequado. A construção com "cuja" ("cuja boa parte de nossa relação procede") altera o sentido original da frase e é gramaticalmente confusa neste contexto.
Fonte: FCC TRT-14 2018 Conhecimentos Comuns (Analista Judiciário TRT14 2018) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.