Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF3 2024 (nº 5)
Devaneio, logo existo
As três pessoas que estavam comigo no elevador se recusavam a devanear. Assim como as pessoas do vagão do metrô. Foram duas rápidas observações que me levaram a respirar aliviado por ter percebido que ainda preservava a autoindulgência tanto do devaneio quanto da inspeção de atitudes alheias. A crítica de “ninguém mais conversa; todo mundo anda e até come com a fuça no celular” nunca me convenceu, pois se a pessoa não está prejudicando ninguém, que faça o que bem entender. No meu conceito, porém, ela está deixando de existir como indivíduo, pois é no devaneio, na contemplação e na troca que se imprime identidade no mundo.
Explico melhor. E para isso recorro à inteligência artificial generativa, uma evocação à própria base de dados para geração de conteúdos novos, sejam textos, áudios, músicas, imagens ou vídeos. E o que é essa jornada se não o próprio caminho do processo criativo, por onde estabelecemos nossa assinatura? Os pensamentos não nascem no vácuo. As descobertas tampouco. Insights germinam do correlacionamento de memórias, da conexão das diferentes peças no repertório intelectual que fomos colecionando no decorrer da vida. A iluminação é elaborada em nosso devaneio. Só que cada vez menos somos propensos à permissão de experiências tão somente contemplativas. Até o caminhar precisa ser preenchido por fone de ouvido, consumo de notícias, checagem de mensagens de Whatsapp.
Quando dizem que a meditação é um dos pilares de estilo de vida saudável não explicam devidamente sua importância. O próprio René Descartes, inspirador do título deste artigo e do cartesianismo, lançou obra chamada Meditações. Também não é explícito o risco do comodismo de entregar tudo o que torna humana a nossa espécie a um dispositivo. Já é sabido desde o século 18, na Revolução Industrial, que as máquinas são superiores em produção. Só que a mecanização não ativa a inteligência nem a razão, que são as ligas da vida e do real progresso dos seres humanos. Ainda no século 17 os filósofos iluministas ensinaram o valor do devaneio na formação de pessoas com melhores decisões morais.
E o que é essa jornada se não o próprio caminho do processo criativo, por onde estabelecemos nossa assinatura? (2º parágrafo)
Predomina no trecho acima a seguinte figura de linguagem:
- AAnacoluto.
- BHipérbole.
- CMetáfora. (alternativa correta)
- DPersonificação.
- EAntítese.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A metáfora é uma figura de linguagem que consiste em empregar uma palavra ou expressão com um sentido que não lhe é comum ou próprio, por haver uma relação de semelhança entre o sentido próprio e o sentido figurado, sem o uso de termos comparativos explícitos como "como" ou "tal qual".
- (A) Incorreta: O anacoluto é a quebra da estrutura sintática da frase, deixando um termo solto ou sem conexão gramatical com o restante, o que não ocorre no trecho em questão, que possui uma construção gramatical coesa.
- (B) Incorreta: A hipérbole é o exagero intencional de uma ideia para enfatizar algo, e o trecho não apresenta nenhum tipo de exagero.
- (C) Correta: A frase utiliza a metáfora ao comparar a "jornada" (o processo de criação e busca de identidade) com o "caminho do processo criativo" e a forma de estabelecer uma "assinatura". A "jornada" não é uma viagem literal, mas um percurso abstrato. A "assinatura" não é um traço em papel, mas a marca pessoal, a identidade única que se imprime. Há uma transposição de sentidos baseada em semelhança, sem conectivos comparativos.
- (D) Incorreta: A personificação (ou prosopopeia) atribui características humanas a seres inanimados ou irracionais, o que não acontece no trecho.
- (E) Incorreta: A antítese consiste na oposição de ideias ou palavras em uma mesma frase ou período, e o trecho não apresenta essa oposição.
Fonte: FCC TRF3 2024 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.