Questão nº 2

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF3 2024 (nº 2)

FCC2024Técnico Judiciário - Área AdministrativaLíngua Portuguesa
Gabarito: Bver comentário ↓

Devaneio, logo existo

As três pessoas que estavam comigo no elevador se recusavam a devanear. Assim como as pessoas do vagão do metrô. Foram duas rápidas observações que me levaram a respirar aliviado por ter percebido que ainda preservava a autoindulgência tanto do devaneio quanto da inspeção de atitudes alheias. A crítica de “ninguém mais conversa; todo mundo anda e até come com a fuça no celular” nunca me convenceu, pois se a pessoa não está prejudicando ninguém, que faça o que bem entender. No meu conceito, porém, ela está deixando de existir como indivíduo, pois é no devaneio, na contemplação e na troca que se imprime identidade no mundo.

Explico melhor. E para isso recorro à inteligência artificial generativa, uma evocação à própria base de dados para geração de conteúdos novos, sejam textos, áudios, músicas, imagens ou vídeos. E o que é essa jornada se não o próprio caminho do processo criativo, por onde estabelecemos nossa assinatura? Os pensamentos não nascem no vácuo. As descobertas tampouco. Insights germinam do correlacionamento de memórias, da conexão das diferentes peças no repertório intelectual que fomos colecionando no decorrer da vida. A iluminação é elaborada em nosso devaneio. Só que cada vez menos somos propensos à permissão de experiências tão somente contemplativas. Até o caminhar precisa ser preenchido por fone de ouvido, consumo de notícias, checagem de mensagens de Whatsapp.

Quando dizem que a meditação é um dos pilares de estilo de vida saudável não explicam devidamente sua importância. O próprio René Descartes, inspirador do título deste artigo e do cartesianismo, lançou obra chamada Meditações. Também não é explícito o risco do comodismo de entregar tudo o que torna humana a nossa espécie a um dispositivo. Já é sabido desde o século 18, na Revolução Industrial, que as máquinas são superiores em produção. Só que a mecanização não ativa a inteligência nem a razão, que são as ligas da vida e do real progresso dos seres humanos. Ainda no século 17 os filósofos iluministas ensinaram o valor do devaneio na formação de pessoas com melhores decisões morais.


No texto, a relação entre devaneio e existência é evidenciada pela

Resposta comentada

Gabarito Alternativa B

O texto defende que o devaneio (o ato de sonhar acordado, contemplar, refletir sem um propósito imediato) é uma parte essencial da existência humana, fundamental para a construção da identidade e do pensamento criativo, em contraste com a distração constante dos estímulos externos.

(A) Incorreta: O texto não sugere que o devaneio sobrepuja a essência humana para ser desafiado; pelo contrário, ele o apresenta como constituinte da essência e necessário para uma compreensão profunda.
(B) Correta: O autor argumenta que "é no devaneio, na contemplação e na troca que se imprime identidade no mundo" e que a "iluminação é elaborada em nosso devaneio", deixando claro que devanear é fundamental para a construção da identidade e a conexão com o mundo.
(C) Incorreta: O texto apresenta um ponto de vista muito claro e conclusivo sobre a importância do devaneio, não apenas uma discussão sem conclusão. O título "Devaneio, logo existo" já é uma tese.
(D) Incorreta: Esta alternativa inverte a crítica do autor. Ele critica a falta de devaneio devido aos estímulos externos (celular, fones), e não a supervalorização do devaneio. A armadilha aqui é confundir o alvo da crítica do autor: ele critica a perda do devaneio, não o devaneio em si.
(E) Incorreta: O texto refuta essa ideia. O autor critica a tendência moderna de ligar a existência à produção e eficiência (mecanização), argumentando que isso não ativa a inteligência nem a razão, e que o devaneio é vital, não supérfluo.

Fonte: FCC TRF3 2024 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.

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