Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC TCE-GO 2022 (nº 7)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 8, baseie-se no texto abaixo.
O que será da escrita sem solidão?
Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. "A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada", ela diz. "Aquilo sem o qual já não vemos nada." Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.
(Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 119-120)
Está correta a nova redação de um segmento do texto em
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 8.
- Aainda é capaz de estar só = ainda está apto à ser só
- Bnão me refiro à penúria = não me atenho pela penúria
- Cuma busca por espaços = uma demanda aos espaços
- Despaços isolados do alvoroço = espaços alheios no alvoroço
- Edesisti de estar só = renunciei a estar só (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Sinonímia é a relação entre palavras ou expressões que possuem significados semelhantes. Paráfrase é a reescrita de um texto ou segmento, mantendo o sentido original, mas com outras palavras.
(A) Incorreta: "Capaz de estar só" significa ter a habilidade ou possibilidade de estar só. "Apto à ser só" apresenta um erro de crase ("a ser só" seria o correto) e, mesmo corrigido, "apto a" sugere mais uma adequação ou qualificação, não sendo um sinônimo perfeito para "capaz de" no contexto de uma habilidade intrínseca.
(B) Incorreta: "Não me refiro à penúria" significa que não estou falando sobre a penúria. "Não me atenho pela penúria" é gramaticalmente inadequado ("não me atenho à penúria" seria o correto, significando não me limito ou não me prendo à penúria), e mesmo assim, o sentido é diferente: referir-se é mencionar, atener-se é apegar-se ou limitar-se.
(C) Incorreta: "Uma busca por espaços" indica um ato de procurar ativamente. "Uma demanda aos espaços" sugere uma necessidade ou solicitação direcionada aos espaços, não um ato de procura, alterando o sentido.
(D) Incorreta: "Espaços isolados do alvoroço" significa espaços separados ou afastados do tumulto. "Espaços alheios no alvoroço" implica que os espaços são indiferentes ou estranhos ao alvoroço, ou que estão inseridos nele de forma desinteressada, o que não é o mesmo que estarem fisicamente separados.
(E) Correta: "Desisti de estar só" expressa a ação de abandonar a intenção ou o esforço de estar sozinho. "Renunciei a estar só" tem exatamente o mesmo sentido, pois "renunciar a" é sinônimo de "desistir de" no contexto de abrir mão de algo ou de uma prática.
Fonte: FCC TCE-GO 2022 Conhecimentos Comuns (Analista de Controle Externo) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.