Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TCE-GO 2022 (nº 6)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 8, baseie-se no texto abaixo.
O que será da escrita sem solidão?
Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. "A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada", ela diz. "Aquilo sem o qual já não vemos nada." Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.
(Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 119-120)
A concordância verbal está plenamente observada na frase:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 7, questão nº 8.
- AJá não me restam nestes novos momentos senão concordar que as experiências de solidão tornaram-se impossíveis.
- BAs frases em que a grande Marguerite Duras brindaram a importância da solidão ressoam em mim até hoje.
- CUma busca obsessiva por espaços e recantos solitários condicionavam minha necessidade de escrever.
- DSomente algum refúgio nos espaços isolados de asilos voluntários permitia-me momentos de criação. (alternativa correta)
- EAos gritos das crianças sucediam-se, por vezes, a reverberação de ecos que iam marcando minha escrita.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Concordância verbal é a regra que exige que o verbo se adapte ao seu sujeito em número (singular ou plural) e pessoa (1ª, 2ª ou 3ª), garantindo que a frase faça sentido gramaticalmente.
- (A) Incorreta: O verbo "restam" está no plural, mas seu sujeito é a oração substantiva "concordar que as experiências de solidão tornaram-se impossíveis". Quando o sujeito é uma oração infinitiva, o verbo deve permanecer no singular (3ª pessoa), ou seja, "resta".
- (B) Incorreta: O verbo "brindaram" está no plural, mas seu sujeito é "a grande Marguerite Duras", que está no singular. O correto seria "brindou". A armadilha aqui é a proximidade do substantivo plural "frases", que não é o sujeito de "brindaram", mas sim de "ressoam". O sujeito de "brindaram" é "Marguerite Duras".
- (C) Incorreta: O verbo "condicionavam" está no plural, mas seu sujeito é "Uma busca obsessiva", que está no singular. O correto seria "condicionava". Os termos "espaços e recantos solitários" são complementos de "busca" e não o sujeito do verbo.
- (D) Correta: O verbo "permitia" está no singular e concorda perfeitamente com seu sujeito "algum refúgio", que também está no singular.
- (E) Incorreta: O verbo "sucediam-se" está no plural, mas seu sujeito é "a reverberação de ecos que iam marcando minha escrita", que está no singular. O correto seria "sucedia-se". A expressão "Aos gritos das crianças" é um complemento e não o sujeito.
Fonte: FCC TCE-GO 2022 Conhecimentos Comuns (Analista de Controle Externo) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.