Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC SPPREV 2019 (nº 7)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões de números 6 a 10.
Ilusões do mundo
Afinal, é mesmo assim: quase sempre nos iludimos. Aquelas nuvens que me pareciam tão de passagem reuniram-se em grupos compactos e prepararam um pequeno dilúvio sobre estes vales de Lindoia. Assim, os forasteiros, surpreendidos, ficaram privados de seus passeios, e as crianças, em turbilhão, começaram a aparecer por baixo de mesas. E foi por isso que os salões do hotel se viram repletos de alaridos.
Imagina-se que deva ser penoso para um turista ver-se de repente privado das alegrias do ar livre. Mas as virtudes destas águas de Lindoia são tamanhas que aqui ninguém se perturba com os contratempos. Benditas águas... Benditas não só por esse otimismo que propiciam como pelas curas reais que se lhes atribuem. Este conta que se achava repleto de cálculos e agora está livre deles. O que se amofinava com as suas alergias, já nem se lembra mais delas. Tudo graças a copinhos de água, a banhos de imersão e a não sei quantas outras modalidades de aplicações.
Aprecio essas maravilhas que me são referidas, mas na verdade o que mais me impressiona é o bom humor que observo em redor de mim. Se as pessoas esbarrarem umas nas outras, cometerem, enfim, esses pequenos desatinos que se observam no convívio dos hotéis, há uma cordialidade generalizada que arredonda as arestas da agressividade.
Acontece, porém, que encontro um sábio que anda perdido sob estas árvores. E o sábio não participa do otimismo geral. O sábio está desgostoso com os apartamentos que já se vão acumulando neste lugar de fontes privilegiadas. Ele vê as coisas em profundidade, e suas previsões são desanimadoras. A bacia destas águas está ameaçada pelas construções que vão sendo feitas indiscriminadamente. A floresta primitiva está quase desaparecida, e não está sendo recomposta, para a devida proteção dos mananciais. Os sábios são, como os artistas, quase sempre melancólicos. Porque avistam mais longe, porque antes que as coisas aconteçam já estão padecendo com as suas consequências... O sábio amava as águas miraculosas. Estava sofrendo por elas. Era a única pessoa triste, no meio de tanto bom humor. Mas era a pessoa mais esclarecida. E, por sua causa, e por sua sapiência, aquele paraíso me pareceu precário, e fiquei também inclinada sobre Lindoia, carpindo, desde já, a possibilidade do seu desaparecimento...
(Adaptado de: MEIRELES, Cecília. Ilusões do mundo. São Paulo: Global Editora, 2014, 1ª edição digital)
Depreende-se corretamente que, no trecho
Este texto de apoio vale também pra questão nº 6, questão nº 8, questão nº 9, questão nº 10.
- ATudo graças a copinhos de água (2º parágrafo), acentua-se a ironia da autora, que, ao longo do texto, questiona o poder de cura das águas de Lindoia, a respeito do qual havia se iludido.
- Bporque antes que as coisas aconteçam já estão padecendo com as suas consequências (último parágrafo), apresenta-se uma causa para a melancolia de sábios e artistas. (alternativa correta)
- Cos forasteiros, surpreendidos, ficaram privados de seus passeios (1º parágrafo), justifica-se a agressividade dos hóspedes, que se veem aglomerados no saguão de um hotel.
- DMas as virtudes destas águas de Lindoia são tamanhas que aqui ninguém se perturba com os contratempos (2º parágrafo), assinala-se o empenho da autora em convencer os hóspedes do hotel da qualidade das águas de Lindoia.
- EE, por sua causa, e por sua sapiência, aquele paraíso me pareceu precário (último parágrafo), a autora condena a atitude do homem que a fez perder a ilusão de que Lindoia poderia ser um local onde predomina a felicidade.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A interpretação de texto busca compreender o que o autor comunica, tanto de forma explícita quanto implícita, analisando as relações entre as ideias e o propósito da escrita.
(A) Incorreta: A autora não questiona o poder de cura das águas de forma irônica neste trecho; ela relata as crenças e os testemunhos das pessoas sobre as "curas reais" atribuídas às águas, observando o otimismo que elas propiciam. A ironia não é o tom predominante aqui.
(B) Correta: O trecho "Porque avistam mais longe, porque antes que as coisas aconteçam já estão padecendo com as suas consequências" é uma explicação direta, fornecida pelo próprio texto, para a melancolia que caracteriza sábios e artistas.
(C) Incorreta: O texto menciona "alaridos" (barulho, agitação) devido à aglomeração, mas não "agressividade". Pelo contrário, o parágrafo seguinte descreve uma "cordialidade generalizada" entre os hóspedes, que "arredonda as arestas da agressividade".
(D) Incorreta: A autora não está empenhada em convencer os hóspedes. Ela está observando e descrevendo a atmosfera do local e o efeito que as águas e a crença nelas têm sobre o humor das pessoas ("ninguém se perturba com os contratempos"). Seu papel é de narradora-observadora, não de promotora.
(E) Incorreta: A autora não condena a atitude do sábio. Ela o reconhece como "a pessoa mais esclarecida" e sua "sapiência" a faz ver a realidade da precariedade de Lindoia, levando-a a compartilhar da preocupação dele, não a culpá-lo por perder a ilusão.
Fonte: FCC SPPREV 2019 Técnico em Gestão Previdenciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.