Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEFAZ-MA 2016 - Conhecimentos Gerais (P1) (nº 2)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 8, considere o texto abaixo.
A tragédia vinha sendo anunciada: desde o começo do ano, Nabiré parecia cansada. Portadora de um cisto no ovário, carregava seu corpo de 31 anos e 2 toneladas com mais dificuldade. Ainda assim, atravessou aquele 27 de julho em relativa normalidade. Comeu feno, caminhou na areia, rolou na poça de lama para proteger-se do sol. Ao fim da tarde, recolheu-se aos seus aposentos – uma área fechada no zoológico Dvůr Králové, na República Tcheca. Deitou-se, dormiu – e nunca mais acordou. No dia seguinte, o diretor da instituição descreveria a perda como "terrível", definindo-a como "um símbolo do declínio catastrófico dos rinocerontes devido à ganância humana".
Nabiré representava 20% dos rinocerontes-brancos-do-norte ainda vivos. A espécie está extinta na natureza. Dos quatro remanescentes, três vivem numa reserva ecológica no Quênia, protegidos por homens armados. O restante – uma fêmea chamada Nola – mora num zoológico nos Estados Unidos. São todos idosos e, até que se prove o contrário, inférteis.
Surgido como um adorno que conferia sucesso reprodutivo ao portador (como a juba, no caso do leão), o chifre acabaria por selar o destino trágico do paquiderme. Passou a ser usado para tratar diversas doenças na medicina oriental. De nada valeram inúmeros estudos científicos mostrando a inocuidade da substância. O chifre virou artigo valiosíssimo no mercado negro da caça.
Segundo estimativas, no começo do século XX a ordem dos rinocerontes era representada por um plantel de meio milhão de animais. Hoje restam apenas 29 mil, divididos em cinco espécies. A que está em estado mais crítico é a subespécie branca-do-norte.
O rinoceronte-branco-do-norte era endêmico do Congo – país que ainda sofre os efeitos de uma guerra civil iniciada em 1996 que já deixou um saldo de ao menos 5 milhões de pessoas mortas. Diante desse quadro, não houve quem zelasse pelo animal.
Nabiré foi um dos quatro rinocerontes-brancos-do-norte nascidos em cativeiro, no próprio zoológico. Após o nascimento de Fatu, no mesmo zoológico, quinze anos mais tarde, nenhuma outra fêmea de rinoceronte-branco-do-norte conseguiu engravidar. Por isso, em 2009, os quatro rinocerontes-brancos-do-norte que faziam companhia a Nabiré foram levados para um reserva no Quênia. Como nem a inseminação artificial tivesse funcionado, havia a esperança última de que um habitat selvagem pudesse surtir algum efeito. Porém, não houve resultado.
Nabiré não viajou com o grupo por ser portadora de uma doença: nasceu com ovário policístico, o que a tornava infértil. "Foi a rinoceronte mais doce que tivemos no zoológico", disse o diretor de projetos internacionais do zoológico. "Nasceu e cresceu aqui. Foi como perder um membro da família."
Há uma esperança remota de que a espécie ainda seja preservada por fertilização in vitro*. "Nossa única esperança é a tecnologia", completou o diretor. "Mas é triste atingir um ponto em que a salvação está em um laboratório. Chegamos tarde. A espécie tinha que ter sido protegida na natureza."*
(Adaptado de: KAZ, Roberto. Revista Piauí. Disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/eramos-cinco)
Considere as afirmações abaixo a respeito da pontuação do texto.
I. O segmento que faziam companhia a Nabiré (6º parágrafo) pode ser isolado por vírgulas, sem alteração do sentido original.
II. No segmento O rinoceronte-branco-do-norte era endêmico do Congo – país que... (5º parágrafo), o sinal de travessão pode ser substituído por vírgula, sem prejuízo da correção gramatical.
III. Sem prejuízo da correção gramatical, uma vírgula pode ser inserida imediatamente após "Hoje" no segmento Hoje restam apenas 29 mil, divididos em cinco espécies... (4º parágrafo).
Está correto o que se afirma APENAS em
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8.
- AI e III.
- BI e II.
- CII e III. (alternativa correta)
- DIII.
- EI.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: A vírgula não é só uma pausa; ela tem regras. Ela isola adjuntos adverbiais deslocados (como "Hoje") e apostos explicativos (explicações), mas não pode separar o sujeito do verbo nem criar sentido diferente do original.
- (A) Incorreta: A oração "que faziam companhia a Nabiré" é restritiva (identifica quais rinocerontes foram levados); isolá-la com vírgulas a tornaria explicativa, mudando o sentido (daria a entender que todos os rinocerontes faziam companhia a ela, o que é falso).
- (B) Incorreta: O travessão em "Congo – país que..." introduz um aposto explicativo; a vírgula pode substituí-lo sem erro gramatical, pois ambos cumprem a mesma função de isolar uma explicação. (Aqui a banca considera a substituição válida.)
- (C) Correta: "Hoje" é um adjunto adverbial de tempo deslocado no início da frase; a vírgula após ele é facultativa e não altera o sentido nem fere a norma culta.
- (D) Incorreta: A afirmação III é correta, mas a II também é, então a alternativa que só cita III está incompleta.
- (E) Incorreta: A afirmação I é falsa (como explicado em A), e a II é verdadeira, então esta opção não pode ser o gabarito.
Armadilha da banca no distrator mais tentador (A): A pegadinha está em achar que qualquer oração com "que" pode ser isolada por vírgulas. A banca testa se você percebe que a oração restritiva (sem vírgula) é essencial para identificar o referente; ao colocar vírgulas, você muda o sentido de "apenas os que faziam companhia" para "todos, que por acaso faziam companhia".
Fonte: FCC SEFAZ-MA 2016 - Conhecimentos Gerais (P1) Conhecimentos Comuns (Técnicos) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.