Questão nº 2

Questão de Língua Portuguesa · FCC SEFAZ-GO 2018 (nº 2)

FCC2018Auditor-Fiscal da Receita Estadual - Classe A - Padrão 1Língua Portuguesa
Gabarito: Cver comentário ↓

Atenção: Para responder às questões de números 1 a 4, considere o texto a seguir.

Os deuses de Delfos

Segundo a mitologia, Zeus teria designado uma medida apropriada e um justo limite para cada ser: o governo do mundo coincide assim com uma harmonia precisa e mensurável, expressa nos quatro motes escritos nas paredes do templo de Delfos: "O mais justo é o mais belo", "Observa o limite", "Odeia a hybris (arrogância)", "Nada em excesso". Sobre estas regras se funda o senso comum grego da Beleza, em acordo com uma visão do mundo que interpreta a ordem e a harmonia como aquilo que impõe um limite ao "bocejante Caos", de cuja goela saiu, segundo Hesíodo, o mundo. Esta visão é colocada sob a proteção de Apolo, que, de fato, é representado entre as Musas no frontão ocidental do templo de Delfos.

Mas no mesmo templo (século IV a.C.), no frontão oriental figura Dioniso, deus do caos e da desenfreada infração de toda regra. Essa coabitação de duas divindades antitéticas não é casual, embora só tenha sido tematizada na idade moderna, com Nietzsche. Em geral, ela exprime a possibilidade, sempre presente e verificando-se periodicamente, da irrupção do caos na beleza da harmonia. Mais especificamente, expressam-se aqui algumas antíteses significativas que permanecem sem solução dentro da concepção grega da Beleza, que se mostra bem mais complexa e problemática do que as simplificações operadas pela tradição clássica.

Uma primeira antítese é aquela entre beleza e percepção sensível. Se de fato a Beleza é perceptível, mas não completamente, pois nem tudo nela se exprime em formas sensíveis, abre-se uma perigosa oposição entre Aparência e Beleza: oposição que os artistas tentarão manter entreaberta, mas que um filósofo como Heráclito abrirá em toda a sua amplidão, afirmando que a Beleza harmônica do mundo se evidencia como casual desordem. Uma segunda antítese é aquela entre som e visão, as duas formas perceptivas privilegiadas pela concepção grega (provavelmente porque, ao contrário do cheiro e do sabor, são recondutíveis a medidas e ordens numéricas): embora se reconheça à música o privilégio de exprimir a alma, é somente às formas visíveis que se aplica a definição de belo (Kalón) como "aquilo que agrada e atrai". Desordem e música vão, assim, constituir uma espécie de lado obscuro da Beleza apolínea harmônica e visível e como tais colocam-se na esfera de ação de Dioniso.

Esta diferença é compreensível se pensarmos que uma estátua devia representar uma "ideia" (presumindo, portanto, uma pacata contemplação), enquanto a música era entendida como algo que suscita paixões.

(ECO, Umberto. História da beleza. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro, Record, 2004, p. 55-56)


Um segmento do texto tem seu sentido adequadamente expresso em outras palavras em:

Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 3, questão nº 4.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

Conceito-chave: A questão testa se você reconhece uma paráfrase — reescrever a mesma ideia com palavras diferentes, mantendo o sentido exato. O erro mais comum é trocar palavras por sinônimos que alteram o significado (pegadinha clássica de banca).

(A) Incorreta: "medida apropriada" vira "medição precisa" (muda sentido de qualidade para exatidão) e "justo limite" vira "juízo restrito" (limite não é juízo, e "restrito" é mais estreito que "justo").

(B) Incorreta: "funda" (estabelece, baseia) foi trocado por "confutou-se" (refutou, contestou) — sentido oposto ao original, além de "convenções" não equivaler a "regras" aqui.

(C) Correta: "colocada sob a proteção de Apolo" = "mantida sob a égide de Apolo" — "égide" significa exatamente proteção, amparo; e "visão" = "interpretação", ambos no mesmo contexto de pensamento. Paráfrase perfeita.

(D) Incorreta: "coabitação" (convivência pacífica no mesmo espaço) foi trocada por "confronto" (embate, conflito) — a banca tenta te fazer confundir convivência com luta; "não é casual" também não é o mesmo que "não é propositado" (casual = acidental; propositado = intencional).

(E) Incorreta: "exprimir a alma" (expressar, manifestar) virou "retundir a alma" (repercutir, ecoar de volta) — verbo raro que muda o sentido; "privilégio" → "prerrogativa" até funciona, mas o verbo principal destrói a equivalência.

Fonte: FCC SEFAZ-GO 2018 Auditor-Fiscal da Receita Estadual - Classe A - Padrão 1 (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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