Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC PM-AP 2022 (nº 6)
A charada do consumo
Atacar a espiral consumista é fácil; o desafio é entender a natureza do seu poder sobre a psicologia humana. A busca por respostas remonta ao mundo antigo. "A riqueza demandada pela natureza", sentenciou Epicuro no século IV a.C., "é limitada e fácil de obter; a demandada pela vã imaginação estende-se ao infinito e é difícil de obter". A centralidade da imaginação como mola propulsora do consumo reaparece, 2 mil anos mais tarde, na observação do crítico social inglês John Ruskin: "Três quartos das demandas existentes no mundo são românticas; e a regulagem da bolsa é, em essência, a regulagem da imaginação e do coração".
O espectro dos desejos de consumo, todavia, não conhece divisões absolutas. As exigências da natureza, é certo, impõem limites e têm de ser atendidas; mas seria ingênuo supor que nossas necessidades básicas de consumo possam ser demarcadas por um critério rigidamente biológico: artigos de consumo de primeira necessidade hoje em dia, como anestésicos, escovas de dente e geladeiras, eram simplesmente desconhecidos nos tempos de Epicuro.
Que o rol das coisas indispensáveis à vida cresceu na história é ponto pacífico. A pergunta inicial, porém, permanece: supridas as exigências básicas, o que move o consumo? O bombardeio de estímulos publicitários a que estamos submetidos é, sem dúvida, parte da resposta, mas é difícil acreditar que ele tenha o dom de criar do nada os desejos que insufla; se funciona, é porque encontra solo fértil em nossa imaginação. A gama das fantasias que nos impelem a consumir não é menor que a pletora de artigos disponíveis no mercado.
Há, não obstante, um aspecto peculiar da nossa "vã imaginação" que remete ao nervo do consumo no mundo moderno. Quando os meios de vida já foram obtidos, há dois tipos de riqueza que podemos demandar. Uma delas é a riqueza democrática: são os bens cujo valor reside na satisfação direta que nos proporcionam. Coisa muito distinta, porém, é a demanda por riqueza oligárquica: o desejo de desfrutar daquilo que nos permite "ocupar um lugar de honra na mente dos nossos semelhantes" − os chamados "bens posicionais". A satisfação proporcionada por esse tipo de bem depende essencialmente do fato de que sua posse é privilégio de poucos no grupo de referência.
Daí que na contenda por bens posicionais, onde o sucesso de alguns é por definição a exclusão da maioria, há apetites de consumo que se estendem ao infinito (dos tênis de marca, novos gadgets e cosméticos às obras de arte). A moeda escassa nesse jogo sisífico é a atenção respeitosa e o afeto das pessoas que nos cercam.
A redação de um comentário sobre o assunto do texto que está gramaticalmente correta se encontra em:
- ASe me proporcionam sentimentos de conforto dormir com o ventilador ligado à noite, isso em nada depende de que outros moradores da cidade podem ou não fazer o mesmo.
- BNo caso estadunidense, como evidencia Robert Fogel, a linha da pobreza, hoje, ao redor de 25 mil dólares anuais para uma família de quatro pessoas levaram os pobres do século XXI a serem considerados relativamente ricos pelos padrões de 1890.
- CPara a maior parte das pessoas, como já observou Adam Smith, a principal fruição da riqueza se dá quando elas pensam possuir bens a que poucos tenham acesso. (alternativa correta)
- DO luxo deixa de sê-lo, no seu componente oligárquico a partir do momento em que, se difundem por um grande número de consumidores, tornando-se uma coisa comum.
- EPercebe-se uma interdependência entre os anseios de consumo, pois aquilo que cada um sente que não podem viver sem, depende também do que possui os outros ao seu redor.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Para que uma frase seja gramaticalmente correta, ela precisa seguir as regras da norma culta da Língua Portuguesa, o que inclui a concordância (verbal e nominal), a regência (verbal e nominal), a colocação pronominal e a clareza sintática.
- (A) Incorreta: Há um erro de concordância verbal. O sujeito da oração "Se me proporcionam sentimentos de conforto dormir com o ventilador ligado à noite" é a oração subordinada substantiva subjetiva reduzida de infinitivo "dormir com o ventilador ligado à noite". Como o sujeito é oracional, o verbo deve ficar na 3ª pessoa do singular: "Se me proporciona sentimentos de conforto dormir...".
- (B) Incorreta: Há um erro de concordância verbal. O sujeito do verbo "levaram" é "a linha da pobreza" (singular). O verbo deveria estar no singular para concordar com o sujeito: "...a linha da pobreza... levou os pobres...".
- (C) Correta: Todas as construções estão gramaticalmente corretas. A concordância verbal ("se dá", "pensam", "tenham") e nominal está adequada, a regência ("acesso a que") está correta, e a estrutura sintática é clara e segue a norma culta.
- (D) Incorreta: Há um erro de concordância verbal e uma vírgula indevida. O sujeito implícito de "se difundem" é "o luxo" (retomado pelo "lo" em "sê-lo"). Portanto, o verbo deveria estar no singular: "se difunde". Além disso, a vírgula após "em que" é indevida, pois separa o conectivo da oração que ele introduz.
- (E) Incorreta: Há um erro de concordância verbal. Na oração "aquilo que cada um sente que não podem viver sem", o sujeito do verbo "podem" é "cada um" (singular). O verbo deveria estar no singular: "que não pode viver sem".
Fonte: FCC PM-AP 2022 Soldado do Quadro de Praças Policiais Militares Combatentes da Polícia Militar do Estado do Amapá (SD QPPMC) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.