Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC PM-AP 2022 (nº 2)
A charada do consumo
Atacar a espiral consumista é fácil; o desafio é entender a natureza do seu poder sobre a psicologia humana. A busca por respostas remonta ao mundo antigo. "A riqueza demandada pela natureza", sentenciou Epicuro no século IV a.C., "é limitada e fácil de obter; a demandada pela vã imaginação estende-se ao infinito e é difícil de obter". A centralidade da imaginação como mola propulsora do consumo reaparece, 2 mil anos mais tarde, na observação do crítico social inglês John Ruskin: "Três quartos das demandas existentes no mundo são românticas; e a regulagem da bolsa é, em essência, a regulagem da imaginação e do coração".
O espectro dos desejos de consumo, todavia, não conhece divisões absolutas. As exigências da natureza, é certo, impõem limites e têm de ser atendidas; mas seria ingênuo supor que nossas necessidades básicas de consumo possam ser demarcadas por um critério rigidamente biológico: artigos de consumo de primeira necessidade hoje em dia, como anestésicos, escovas de dente e geladeiras, eram simplesmente desconhecidos nos tempos de Epicuro.
Que o rol das coisas indispensáveis à vida cresceu na história é ponto pacífico. A pergunta inicial, porém, permanece: supridas as exigências básicas, o que move o consumo? O bombardeio de estímulos publicitários a que estamos submetidos é, sem dúvida, parte da resposta, mas é difícil acreditar que ele tenha o dom de criar do nada os desejos que insufla; se funciona, é porque encontra solo fértil em nossa imaginação. A gama das fantasias que nos impelem a consumir não é menor que a pletora de artigos disponíveis no mercado.
Há, não obstante, um aspecto peculiar da nossa "vã imaginação" que remete ao nervo do consumo no mundo moderno. Quando os meios de vida já foram obtidos, há dois tipos de riqueza que podemos demandar. Uma delas é a riqueza democrática: são os bens cujo valor reside na satisfação direta que nos proporcionam. Coisa muito distinta, porém, é a demanda por riqueza oligárquica: o desejo de desfrutar daquilo que nos permite "ocupar um lugar de honra na mente dos nossos semelhantes" − os chamados "bens posicionais". A satisfação proporcionada por esse tipo de bem depende essencialmente do fato de que sua posse é privilégio de poucos no grupo de referência.
Daí que na contenda por bens posicionais, onde o sucesso de alguns é por definição a exclusão da maioria, há apetites de consumo que se estendem ao infinito (dos tênis de marca, novos gadgets e cosméticos às obras de arte). A moeda escassa nesse jogo sisífico é a atenção respeitosa e o afeto das pessoas que nos cercam.
O que o autor classifica como "riqueza oligárquica" (4º parágrafo) consiste no desejo de obter bens que
- Apudessem nos converter em indivíduos altruístas.
- Bpossam garantir o afeto dos que nos rodeiam.
- Cpermitam driblar as necessidades impostas pela natureza.
- Dpermitam que aquilo que consumimos diferencie nossa imagem dos demais. (alternativa correta)
- Edependem de necessidades reais e palpáveis.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A "riqueza oligárquica" é o desejo por bens que não satisfazem uma necessidade básica, mas sim elevam o status social da pessoa, distinguindo-a das demais.
(A) Incorreta: O texto não associa riqueza oligárquica a altruísmo; pelo contrário, ela está ligada ao desejo de distinção e privilégio.
(B) Incorreta: Embora o afeto e a atenção sejam mencionados como "moeda escassa" no "jogo sisífico" dos bens posicionais (que são a manifestação da riqueza oligárquica), o desejo primário da riqueza oligárquica não é garantir afeto, mas sim ocupar um lugar de honra, ou seja, ter status e reconhecimento, o que pode indiretamente levar a atenção, mas não é o objetivo direto do bem. Esta é a armadilha, pois confunde o resultado com a causa.
(C) Incorreta: A riqueza oligárquica é o oposto de driblar necessidades naturais; ela surge depois que as exigências básicas são supridas e é impulsionada pela "vã imaginação".
(D) Correta: O texto define riqueza oligárquica como "o desejo de desfrutar daquilo que nos permite 'ocupar um lugar de honra na mente dos nossos semelhantes'", e que "sua posse é privilégio de poucos no grupo de referência", o que implica diferenciação e distinção social.
(E) Incorreta: Bens que dependem de necessidades reais e palpáveis são a "riqueza democrática" ou as "exigências da natureza", não a riqueza oligárquica, que é movida pela "vã imaginação".
Fonte: FCC PM-AP 2022 Soldado do Quadro de Praças Policiais Militares Combatentes da Polícia Militar do Estado do Amapá (SD QPPMC) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.