Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC PGE-AM 2022 (nº 5)
Fernando Pessoa é não apenas um dos maiores poetas modernos, mas um dos maiores poetas da modernidade, ou seja, um dos poetas que mais longe levaram a experiência tanto das possibilidades quanto do desencanto do mundo moderno. Não que ele esteja próximo das veleidades contemporâneas. A modernidade a que me refiro não se confunde com a mera contemporaneidade. Deixemos de lado nosso provincianismo temporal. A modernidade consiste em primeiro lugar na época da desprovincianização do mundo: aquela que, do ponto de vista temporal, abre-se com o humanismo que, voltando os olhos para o mundo clássico, relativiza o mundo contemporâneo; e que, do ponto de vista espacial, abre-se com as descobertas geográficas, celebradas pelo próprio Pessoa, quando diz, por exemplo, no altíssimo poema "O infante", inspirado em d. Henrique, o Navegador:
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até o fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!O processo de cosmopolitização que produziu o mundo moderno não se restringiu às descobertas dos humanistas e dos navegadores, pois também incluiu explorações científicas, artísticas etc. Ora, a abertura de novos horizontes tornou possível a compreensão do caráter limitado dos antigos horizontes. As ideias e as crenças tradicionais puderam ser postas em questão.
A filosofia moderna se formou a partir do ceticismo mais radical que se pode imaginar: a dúvida hiperbólica de Descartes, segundo a qual é possível que tudo o que pensamos saber não tenha consistência maior que a de sonhos, alucinações, ataques de loucura etc. Com razão, Alexandre Koyré afirmou que essa dúvida foi "a mais tremenda máquina de guerra contra a autoridade e a tradição que o homem jamais possuiu".
Pode-se dizer então que o homem moderno é aquele que viu desabarem, ao sopro da razão, os castelos de cartas das crenças tradicionais: o homem que caiu em si. Em última análise, é isso que o obriga a instaurar, por exemplo, os procedimentos jurídicos modernos como processos abertos à razão crítica, públicos, e cujos resultados estão sempre, em princípio, sujeitos a ser revistos ou refutados.
Considerando o poema, exercem a mesma função sintática os termos sublinhados nos seguintes versos:
- ADeus quer, o homem sonha, a obra nasce. // Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
- BE viu-se a terra inteira, de repente // Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. (alternativa correta)
- CSagrou-te, e foste desvendando a espuma, // Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
- DDo mar e nós em ti nos deu sinal. // E viu-se a terra inteira, de repente,
- EE a orla branca foi de ilha em continente, // Surgir, redonda, do azul profundo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Função sintática é o papel que uma palavra ou grupo de palavras desempenha dentro de uma frase, como ser quem pratica ou sofre a ação (chamado sujeito), quem recebe a ação (como objeto direto ou indireto), ou como, onde, quando a ação acontece (como adjunto adverbial).
- (A) Incorreta: Em "a obra nasce", "a obra" é o sujeito (o que nasce?). Em "desvendando a espuma", "a espuma" é o objeto direto (desvendando o quê?). As funções são diferentes.
- (B) Correta: Em "E viu-se a terra inteira", "a terra inteira" é o sujeito (o que foi visto? - o "se" aqui é partícula apassivadora). Em "a obra nasce", "a obra" é o sujeito (o que nasce?). Ambas as funções são de sujeito.
- (C) Incorreta: Em "desvendando a espuma", "a espuma" é o objeto direto (desvendando o quê?). Em "Cumpriu-se o Mar", "o Mar" é o sujeito (o que se cumpriu? - o "se" aqui é partícula apassivadora, indicando que "o Mar" é o sujeito paciente). As funções são diferentes. Armadilha da banca: A presença do "se" em "Cumpriu-se o Mar" pode levar o aluno a pensar em um sujeito indeterminado ou em uma função diferente de sujeito, mas "o Mar" é claramente o elemento que sofre a ação de ser cumprido, funcionando como sujeito paciente.
- (D) Incorreta: Em "nos deu sinal", "sinal" é o objeto direto (deu o quê?). Em "E viu-se a terra inteira", "a terra inteira" é o sujeito (o que foi visto?). As funções são diferentes.
- (E) Incorreta: Em "a orla branca foi", "a orla branca" é o sujeito (o que foi?). Em "Surgir, redonda, do azul profundo", "do azul profundo" é um adjunto adverbial de lugar (surgir de onde?). As funções são diferentes.
Fonte: FCC PGE-AM 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico B) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.