Questão nº 2

Questão de Língua Portuguesa · FCC PGE-AM 2022 (nº 2)

FCC2022Comum Técnico BLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Fernando Pessoa é não apenas um dos maiores poetas modernos, mas um dos maiores poetas da modernidade, ou seja, um dos poetas que mais longe levaram a experiência tanto das possibilidades quanto do desencanto do mundo moderno. Não que ele esteja próximo das veleidades contemporâneas. A modernidade a que me refiro não se confunde com a mera contemporaneidade. Deixemos de lado nosso provincianismo temporal. A modernidade consiste em primeiro lugar na época da desprovincianização do mundo: aquela que, do ponto de vista temporal, abre-se com o humanismo que, voltando os olhos para o mundo clássico, relativiza o mundo contemporâneo; e que, do ponto de vista espacial, abre-se com as descobertas geográficas, celebradas pelo próprio Pessoa, quando diz, por exemplo, no altíssimo poema "O infante", inspirado em d. Henrique, o Navegador:

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até o fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

O processo de cosmopolitização que produziu o mundo moderno não se restringiu às descobertas dos humanistas e dos navegadores, pois também incluiu explorações científicas, artísticas etc. Ora, a abertura de novos horizontes tornou possível a compreensão do caráter limitado dos antigos horizontes. As ideias e as crenças tradicionais puderam ser postas em questão.

A filosofia moderna se formou a partir do ceticismo mais radical que se pode imaginar: a dúvida hiperbólica de Descartes, segundo a qual é possível que tudo o que pensamos saber não tenha consistência maior que a de sonhos, alucinações, ataques de loucura etc. Com razão, Alexandre Koyré afirmou que essa dúvida foi "a mais tremenda máquina de guerra contra a autoridade e a tradição que o homem jamais possuiu".

Pode-se dizer então que o homem moderno é aquele que viu desabarem, ao sopro da razão, os castelos de cartas das crenças tradicionais: o homem que caiu em si. Em última análise, é isso que o obriga a instaurar, por exemplo, os procedimentos jurídicos modernos como processos abertos à razão crítica, públicos, e cujos resultados estão sempre, em princípio, sujeitos a ser revistos ou refutados.


A filosofia moderna se formou a partir do ceticismo mais radical que se pode imaginar (3º parágrafo).

Na frase acima, como recurso expressivo, o autor faz uso de

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

A hipérbole é uma figura de linguagem que consiste no uso intencional e exagerado de termos para intensificar uma ideia, tornando-a mais expressiva ou dramática.

  • (A) Incorreta: Não há duplo sentido ou incerteza de interpretação na frase; a mensagem é clara e direta.
  • (B) Incorreta: Não são atribuídas características humanas a seres inanimados ou conceitos abstratos.
  • (C) Incorreta: Não há oposição de ideias ou termos contrastantes na frase.
  • (D) Correta: A expressão "o ceticismo mais radical que se pode imaginar" emprega um exagero para enfatizar a intensidade e a profundidade desse ceticismo, caracterizando-o como algo extremo e além do comum, o que é a essência da hipérbole.
  • (E) Incorreta: A frase não busca suavizar ou atenuar uma ideia desagradável; pelo contrário, ela a intensifica.

Fonte: FCC PGE-AM 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico B) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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