Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPEPE 2018 (nº 5)
[Um documentário britânico]
No início dos anos 1980, uma equipe da TV BBC britânica veio ao Brasil gravar um documentário sobre as condições de vida numa favela do Rio de Janeiro. A ideia era mostrar de forma hiper-realista, no melhor estilo "câmera invisível" da tradição anglo-americana de reportagem, um dia na vida de uma jovem favelada. A intenção era explorar ao máximo as chagas abertas e a penúria do dia a dia na favela, as condições aviltantes da vida no morro.
Acontece que a eleita para servir de fio condutor do programa personificava a negação viva de toda a carga de sombra e amargura que o registro clínico de seu cotidiano na favela nos faria esperar dela. A moça, porém, em meio à pobreza, irradiava uma energia alegre e espontânea, uma satisfação íntima consigo mesma e uma sensualidade exuberante que jamais se encontrariam numa inglesa de sua idade, não importando a classe social. Embora tivesse razões de sobra para queixar-se do destino e viver na mais espessa melancolia, ela esbanjava alegria de viver por todos os poros e arrancava luz das trevas com sua vitalidade interior.
Inesquecível é a cena em que a moça ia buscar água numa bica distante de casa e, para o desconcerto da equipe da BBC, voltava carregando o balde pesado equilibrado na cabeça e... cantando! A relação assim estabelecida entre o barraco pobre e objetivo e o alegre palácio interior dá o que pensar. Pelo menos terá feito pensar muito os jornalistas britânicos que vieram para fazer uma reportagem e fizeram outra.
(Adaptado de: GIANETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 160-161)
É clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:
- ANão contava a equipe de jornalistas em que a moça da favela intervisse com sua alegria na reportagem programada para ser de denúncia.
- BTipicamente europeus os jornalistas britânicos achavam que era impossível haverem expansões de alegria num cenário como os de uma favela.
- CAos jornalistas britânicos não ocorreu que os modos da jovem moradora da favela transcendessem as expectativas iniciais da reportagem. (alternativa correta)
- DTalvez lhes tenha parecido excessivos os rompantes de alegria com que a jovem da favela não se continha diante dos jornalistas britânicos.
- EA sensualidade da moça não se restringia sob o peso dos fatos que deveriam deprimir-lhe, mas que pelo contrário, nela se irradiavam com alegria.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A clareza e correção gramatical referem-se à capacidade de uma frase ser facilmente compreendida e de seguir todas as normas da língua portuguesa, como concordância, regência, pontuação e colocação pronominal. Uma redação clara e correta evita ambiguidades e erros que dificultam a comunicação.
(A) Incorreta: A regência do verbo "contar" está inadequada ("contava... em que... intervisse"). A construção é confusa e não segue a norma culta, que exigiria algo como "não contava com que a moça interviesse" ou "não esperava que a moça interviesse".
(B) Incorreta: Há dois erros gramaticais: a falta de vírgula após "europeus" (adjunto adverbial deslocado) e, principalmente, o uso incorreto de "haverem" no sentido de existir. O verbo "haver" nesse sentido é impessoal e deve permanecer no singular ("haver expansões"). Essa é uma armadilha comum.
(C) Correta: A frase está gramaticalmente impecável. A regência do verbo "ocorrer" (ocorrer a alguém) está correta, assim como a concordância e a construção da oração subordinada ("que os modos... transcendessem"). A redação é clara e concisa.
(D) Incorreta: A concordância de "excessivos" com "rompantes" está correta, mas a colocação do pronome "lhes" e a regência de "não se continha" com a preposição "com" tornam a frase pouco natural e um tanto ambígua. O ideal seria "diante dos quais a jovem... não se continha" ou "que a jovem... não conseguia conter".
(E) Incorreta: O pronome "lhe" está incorretamente usado. O verbo "deprimir" é transitivo direto, exigindo "deprimi-la" (referindo-se à moça), e não "deprimir-lhe". Além disso, falta uma vírgula após "pelo contrário".
Fonte: FCC MPEPE 2018 Conhecimentos Comuns (Analista Ministerial) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.