Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC ALAP 2019 (nº 4)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 5, baseie-se no texto abaixo.
[O motor da preguiça]
Acho que a verdadeira força motriz do desenvolvimento humano, a razão da superioridade e do sucesso do Homem, foi a preguiça. A técnica é fruto da preguiça. O que são o estilingue, a flecha e a lança senão maneiras de não precisar ir lá e esgoelar a caça ou um semelhante com as mãos, arriscando-se a levar a pior e perder a viagem? O que estaria pensando o inventor da roda senão no eventual desenvolvimento da charrete, que, atrelada a um animal menos preguiçoso do que ele, o levaria a toda parte sem que ele precisasse correr ou caminhar?
Toda a história das telecomunicações, desde os tambores tribais e seus códigos primitivos até os sinais da TV e a internet, se deve ao desejo humano de enviar a mensagem em vez de ir entregá-la pessoalmente. A fome de riqueza e poder do Homem não passa da vontade de poder mandar os outros fazerem o que ele tem preguiça de fazer, seja de trazer os seus chinelos ou construir suas pirâmides.
A química moderna é filha da alquimia, que era a tentativa de ter o ouro sem ter que procurá-lo, ou trabalhar para merecê-lo. A física e a filosofia são produtos da contemplação, que é um subproduto da indolência e uma alternativa para a sesta, A grande arte também se deve à preguiça. Não por acaso, o que é considerada a maior realização da melhor época da arte ocidental, o teto da Capela Sistina, foi feita pelo Michelangelo deitado. Marcel Proust escreveu Em busca do tempo perdido deitado. Vá lá, recostado.
As duas maiores invenções contemporâneas, depois do antibiótico e do microchip, que são a escada rolante e o manobrista, devem sua existência à preguiça. E nem vamos falar no controle remoto.
Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 5.
- AAté mesmo as artes não deixam de escapar dos atributos da preguiça, cujos se tornam essenciais para seu desempenho de grandes criações.
- BEstaria numa lei do mínimo esforço as razões segundo as quais nosso trabalho seria amenizado no caso de satisfizermos a nossa preguiça.
- CAo colocar na mesma frase os termos chinelos e pirâmides, o autor usufrue de seu talento para um efeito de humor no qual não estamos isentos.
- DÉ notória a capacidade que tem esse cronista de, por meio de um humor sagaz e extremamente crítico, levar seus leitores ao riso irônico. (alternativa correta)
- EConquanto não se deve rir da técnica e da ciência, esse autor as submete ao ridículo quando as atribui o valor da preguiça que lhes motiva.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A questão pede para identificar a alternativa que apresenta um comentário sobre o texto que seja claro e correto tanto em sua redação (gramática, sintaxe, pontuação) quanto em sua adequação ao conteúdo e tom do texto.
- A) Incorreta: O pronome relativo "cujos" está empregado incorretamente. Deveria ser "os quais" ou "que", pois não há ideia de posse. A frase correta seria "Até mesmo as artes não deixam de escapar dos atributos da preguiça, os quais se tornam essenciais para seu desempenho de grandes criações."
- B) Incorreta: Há um erro de concordância verbal. O sujeito da oração é "as razões", que está no plural, portanto o verbo deveria ser "estariam" ("Estariam numa lei do mínimo esforço as razões...").
- C) Incorreta: O verbo "usufruir" está conjugado incorretamente; o correto é "usufrui" (3ª pessoa do singular do presente do indicativo). Além disso, a regência de "isento" está inadequada; o correto seria "do qual não estamos isentos" ou "do qual não somos alheios", referindo-se ao efeito de humor.
- (D) Correta: A redação da frase está impecável, sem erros gramaticais ou de sintaxe. O comentário é preciso ao descrever o texto como uma crônica que utiliza um "humor sagaz e extremamente crítico" (no sentido de observador e analítico, não necessariamente pejorativo) para levar o leitor a um "riso irônico", que é exatamente o efeito que o autor busca ao subverter a ideia comum de preguiça como algo negativo e apresentá-la como motor do desenvolvimento.
- E) Incorreta: Há um erro de regência verbal. O verbo "atribuir" é transitivo direto e indireto, exigindo a preposição "a" para o objeto indireto. O correto seria "quando lhes atribui o valor da preguiça" ou "quando atribui a elas o valor da preguiça". O pronome "as" está incorreto aqui. Armadilha: Esta alternativa é tentadora porque o conteúdo (o autor submeter a técnica e a ciência ao ridículo ao associá-las à preguiça) está alinhado com o texto. No entanto, a redação da própria alternativa contém erros gramaticais, o que a invalida, pois a questão pede um comentário com "redação clara e correta".
Fonte: FCC ALAP 2019 Assistente Legislativo - Assistente Legislativo (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.