Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO IBGE - Processo Seletivo 02/2016 (nº 13)
Texto II
Feliz por nada
Geralmente, quando uma pessoa exclama "Es-
tou tão feliz!", é porque engatou um novo amor, con-
seguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estu-
dos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo.
Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que
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essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as
novidades envelhecem e que não é seguro se sentir
feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor
é ser feliz por nada.Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz por-
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que alguém o elogiou. Feliz porque existe uma pers-
pectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque
você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a
pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo
mais acolhedor do que sua cama. Mesmo sendo mo-
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tivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.Feliz por nada, nada mesmo? Talvez passe pela
total despreocupação com essa busca.Particularmente, gosto de quem tem compromis-
so com a alegria, que procura relativizar as chatices
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diárias e se concentrar no que importa pra valer, e
assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos
outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz
também. Não estando "realizado", também. Estando
triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma.
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Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é
tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochada-
mente assombrado consigo próprio: como é que eu
me meti nessa, como é que foi acontecer comigo?
Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
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Benditos os que conseguem se deixar em paz.
Os que não se cobram por não terem cumprido suas
resoluções, que não se culpam por terem falhado,
não se torturam por terem sido contraditórios, não se
punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o
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melhor que podem.Se é para ser mestre em alguma coisa, então
que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do
pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao
mesmo tempo ser livre. Adequação à sociedade e li-
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berdade simultaneamente? É uma senhora ambição.
Demanda a energia de uma usina. Para que se con-
sumir tanto?A vida não é um questionário. Você não precisa
ter que responder ao mundo quais são suas qualida-
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des, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho
seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se
autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-
-intencionado e que muda de opinião sem a menor
culpa.
50Ser feliz por nada talvez seja isso.
O Texto II estabelece uma oposição entre as seguintes ideias:
- A"patrulha do pensamento" (ℓ. 38-39) e "adequação à sociedade" (ℓ. 40)
- B"conseguir uma promoção" (ℓ. 2-3) e "ganhar uma bolsa de estudos" (ℓ. 3-4)
- C"ficar assombrado consigo próprio" (ℓ. 27-28) e "aturar o inevitável" (ℓ. 26)
- D"atingimento de metas" (ℓ. 8) e "despreocupação com essa busca" (ℓ. 18) (alternativa correta)
- E"relativizar as chatices diárias" (ℓ. 20-21) e "tirar proveito do imprevisto" (ℓ. 27)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Conceito-chave: Oposição é quando duas ideias se contrastam diretamente no texto, como “ter um objetivo” versus “não se preocupar em ter objetivo”. A banca testa se você percebe o par antitético central do texto, não apenas palavras que aparecem juntas.
- (A) Incorreta: “Patrulha do pensamento” e “adequação à sociedade” são apresentadas como consequência (a patrulha é o que exige adequação), não como ideias opostas entre si.
- (B) Incorreta: “Conseguir promoção” e “ganhar bolsa” são exemplos equivalentes de “metas” (mesma categoria), não há oposição.
- (C) Incorreta: “Ficar assombrado” e “aturar o inevitável” são habilidades complementares da felicidade por nada, não contrárias.
- (D) Correta: O texto opõe “ser feliz por atingimento de metas” (linha 8, criticado como inseguro) a “despreocupação com essa busca” (linha 18, que define “feliz por nada”). É a antítese central: esforço orientado a resultados versus abandono da cobrança.
- (E) Incorreta: “Relativizar chatices” e “tirar proveito do imprevisto” são ações paralelas da mesma atitude de leveza, não opostas.
Armadilha do distrator mais tentador (E): A banca junta duas expressões que parecem diferentes, mas ambas são exemplos da mesma filosofia (lidar bem com o que incomoda). O aluno marca por achar que “relativizar” e “tirar proveito” são contrários, quando na verdade são sinônimos contextuais. A pegadinha é confundir diferença de palavras com oposição de ideias.
Fonte: CESGRANRIO IBGE - Processo Seletivo 02/2016 Agente de Pesquisas e Mapeamento (Caderno Gabarito 1). Reproduzida para fins de estudo.