Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 02/2021 (nº 9)
Uma cena
1
É de manhã. Não num lugar qualquer, mas no Rio. E não numa época qualquer, mas no outono. Outono no Rio. O ar é fino, quase frio, as pedras portuguesas da calçada estão úmidas. No alto, o céu já é de um azul escandaloso, mas o sol oblíquo ainda não conseguiu vencer os prédios e arrasta seus raios pelo mar, pelas praias, por cima das montanhas, longe dali. Não chegou à rua. E, naquele trecho, onde as amendoeiras trançam suas copas, ainda é quase madrugada.2
Mesmo assim, ela já está lá – como se à espera do sol.3
É uma senhora de cabelos muito brancos, sentada em sua cadeira, na calçada. Na rua tranquila, de pouco movimento, não passa quase ninguém a essa hora, tão de manhãzinha. Nem carros, nem pessoas. O que há mais é o movimento dos porteiros e dos pássaros. Os primeiros, com suas vassouras e mangueiras, conversando sobre o futebol da véspera. Os segundos, cantando – dentro ou fora das gaiolas.4
Mas, mesmo com tão pouco movimento, a senhora já está sentada muito ereta, com seu vestido estampado, de corte simples, suas sandálias. Tem o olhar atento, o sorriso pronto a cumprimentar quem surja. No braço da cadeira de plástico branco, sua mão repousa, mas também parece pronta a erguer-se num aceno, quando alguém passar.5
É uma cena bonita, eu acho. Cena que se repete todos os dias. Parece coisa de antigamente.6
Parece. Não fosse por um detalhe. A senhora, sentada placidamente em sua cadeira na calçada, observando as manhãs, está atrás das grades.7
Meu irmão, que foi morar fora do Brasil e ficou 15 anos sem vir aqui, ao voltar só teve um choque: as grades. Nada mais o impressionou, tudo ele achou normal. Fez comentários vagos sobre as árvores crescidas no Aterro, sobre o excesso de gente e carros, tudo sem muita ênfase. Mas e essas grades, me perguntou, por que todas essas grades? E eu, espantada com seu espanto, eu que de certa forma já me acostumara à paisagem gradeada, fiquei sem saber o que dizer.8
Penso nisso agora, ao passar pela rua e ver aquela senhora. Todos os dias, o porteiro coloca ali a cadeira para que ela se sente, junto ao jardim, em frente à portaria, por trás da proteção do gradil pintado com tinta cor de cobre. E essa cena tão singela, de sabor tão antigo, se desenrola assim, por trás de barras de ferro, que mesmo sendo de alumínio para não enferrujar são de um ferro simbólico, que prende, constrange, restringe.9
Eu, da calçada, vejo-a sempre por entre as tiras verticais de metal, sua figura frágil me fazendo lembrar os passarinhos que os porteiros guardam nas gaiolas, pendurados nas árvores.
A redação oficial tem como atributo a clareza, não se admitindo, para os textos, mais de um entendimento possível.
A frase que teria de ser reescrita para se adequar a essa regra da escrita oficial é
- AO porteiro ajudou a velha senhora a se sentar sob as árvores.
- BTodas as manhãs, aquela senhora observava os pássaros cantando. (alternativa correta)
- CA população da cidade do Rio precisa cuidar melhor dos espaços públicos.
- DO pedido da população por mais segurança será discutido pelos vereadores.
- EObservando o sol e o mar, o poeta escolheu o tema para um novo poema.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: Clareza na redação oficial significa que a frase tem um só entendimento possível, sem ambiguidade. Se uma frase puder ser lida de duas maneiras diferentes, ela está errada para o padrão oficial, mesmo que pareça bonita ou correta.
- (A) Incorreta: A frase é clara e objetiva, sem duplo sentido. O verbo "ajudou" e o complemento "a se sentar sob as árvores" não geram interpretação alternativa.
- (B) Correta: A frase é ambígua: "observava os pássaros cantando" pode significar que a senhora observava os pássaros enquanto eles cantavam, ou que ela observava os pássaros enquanto ela mesma cantava. Essa dupla leitura viola a clareza exigida pela redação oficial.
- (C) Incorreta: A frase é uma recomendação genérica, mas com sujeito e objeto bem definidos ("população" cuida de "espaços públicos"), sem margem para outra interpretação.
- (D) Incorreta: A frase é direta: o pedido (sujeito) será discutido (verbo) pelos vereadores (agente). Não há ambiguidade sintática ou semântica.
- (E) Incorreta: A armadilha aqui é a ordem inversa ("Observando o sol e o mar, o poeta..."), mas a estrutura é clara: quem observa é o poeta, e o tema é o poema. Não há dois sujeitos possíveis para a ação de "observar".
Dica para não cair na pegadinha: Na dúvida, pergunte: "Quem faz a ação?" Se a frase permitir responder com dois agentes diferentes (a senhora ou os pássaros), é ambiguidade. A banca adora usar gerúndio ou orações reduzidas para criar esse duplo sentido, como no caso de "cantando".
Fonte: CESGRANRIO BASA 02/2021 Técnico Científico - Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.