Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 02/2021 (nº 4)
Uma cena
1
É de manhã. Não num lugar qualquer, mas no Rio. E não numa época qualquer, mas no outono. Outono no Rio. O ar é fino, quase frio, as pedras portuguesas da calçada estão úmidas. No alto, o céu já é de um azul escandaloso, mas o sol oblíquo ainda não conseguiu vencer os prédios e arrasta seus raios pelo mar, pelas praias, por cima das montanhas, longe dali. Não chegou à rua. E, naquele trecho, onde as amendoeiras trançam suas copas, ainda é quase madrugada.2
Mesmo assim, ela já está lá – como se à espera do sol.3
É uma senhora de cabelos muito brancos, sentada em sua cadeira, na calçada. Na rua tranquila, de pouco movimento, não passa quase ninguém a essa hora, tão de manhãzinha. Nem carros, nem pessoas. O que há mais é o movimento dos porteiros e dos pássaros. Os primeiros, com suas vassouras e mangueiras, conversando sobre o futebol da véspera. Os segundos, cantando – dentro ou fora das gaiolas.4
Mas, mesmo com tão pouco movimento, a senhora já está sentada muito ereta, com seu vestido estampado, de corte simples, suas sandálias. Tem o olhar atento, o sorriso pronto a cumprimentar quem surja. No braço da cadeira de plástico branco, sua mão repousa, mas também parece pronta a erguer-se num aceno, quando alguém passar.5
É uma cena bonita, eu acho. Cena que se repete todos os dias. Parece coisa de antigamente.6
Parece. Não fosse por um detalhe. A senhora, sentada placidamente em sua cadeira na calçada, observando as manhãs, está atrás das grades.7
Meu irmão, que foi morar fora do Brasil e ficou 15 anos sem vir aqui, ao voltar só teve um choque: as grades. Nada mais o impressionou, tudo ele achou normal. Fez comentários vagos sobre as árvores crescidas no Aterro, sobre o excesso de gente e carros, tudo sem muita ênfase. Mas e essas grades, me perguntou, por que todas essas grades? E eu, espantada com seu espanto, eu que de certa forma já me acostumara à paisagem gradeada, fiquei sem saber o que dizer.8
Penso nisso agora, ao passar pela rua e ver aquela senhora. Todos os dias, o porteiro coloca ali a cadeira para que ela se sente, junto ao jardim, em frente à portaria, por trás da proteção do gradil pintado com tinta cor de cobre. E essa cena tão singela, de sabor tão antigo, se desenrola assim, por trás de barras de ferro, que mesmo sendo de alumínio para não enferrujar são de um ferro simbólico, que prende, constrange, restringe.9
Eu, da calçada, vejo-a sempre por entre as tiras verticais de metal, sua figura frágil me fazendo lembrar os passarinhos que os porteiros guardam nas gaiolas, pendurados nas árvores.
O emprego do pronome oblíquo em destaque respeita a norma-padrão da língua em:
- AQuando perguntaram sobre as grades, fiquei sem saber o que lhes dizer. (alternativa correta)
- BO sol oblíquo nasce atrás dos prédios, mas ainda não conseguiu vencer-lhes.
- CA velha senhora está sempre lá. Já espero lhe ver quando saio todas as manhãs.
- DAinda demora para o sol nascer, mas, mesmo assim, a velha senhora já está lá a lhe esperar.
- EQuando as pessoas passam na calçada, aquela senhora tem o sorriso pronto para lhes cumprimentar.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O segredo é entender que o pronome oblíquo "lhe" só pode ser usado para objeto indireto (quando o verbo pede a preposição "a" ou "para") ou para indicar posse. Já o pronome "o/a/os/as" (e suas variações "lo/la/no/na") é que funciona como objeto direto (quando o verbo não pede preposição). A pegadinha da banca é trocar esses papéis, fazendo você achar que "lhe" pode substituir qualquer pessoa, mas ele só serve para quem recebe a ação indiretamente.
- (A) Correta: O verbo "dizer" pede objeto indireto ("dizer a alguém"), então "lhes" (a eles) está correto: "dizer a eles" = "lhes dizer". A norma-padrão exige exatamente essa forma.
- (B) Incorreta: O verbo "vencer" é transitivo direto (vence algo), então o correto seria "vencê-los" (vence os prédios). "Vencer-lhes" seria "vencer a eles", o que não faz sentido aqui. A armadilha é achar que "lhes" pode substituir qualquer complemento.
- (C) Incorreta: O verbo "ver" é transitivo direto (ver alguém), então o correto é "espero vê-la" (vê-la = ver + a ela). "Lhe ver" é um erro clássico de quem confunde objeto direto com indireto. A banca tenta te seduzir com o som natural de "lhe ver", mas é proibido na norma culta.
- (D) Incorreta: Aqui, "esperar" no sentido de "aguardar" é transitivo direto (esperar alguém), então o correto seria "a esperar" (esperá-la). "A lhe esperar" seria "esperar a ela", o que é um equívoco. A armadilha é a preposição "a" antes de "lhe", que parece justificar o uso, mas o verbo não pede essa preposição.
- (E) Incorreta: O verbo "cumprimentar" é transitivo direto (cumprimentar alguém), então o correto é "para cumprimentá-los" (cumprimentar + os). "Lhes cumprimentar" seria "cumprimentar a eles", o que é um erro. A banca apela para a ideia de "cumprimentar a alguém", mas na norma-padrão o verbo não exige preposição, então "lhes" não cabe.
Fonte: CESGRANRIO BASA 02/2021 Técnico Científico - Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.