Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa I · CESGRANRIO BASA 01/2015 (nº 9)
Da medicina do trabalho à saúde do trabalhador
A medicina do trabalho, enquanto especialidade médica, surge na Inglaterra, na primeira metade do século XIX, com a Revolução Industrial.
Naquele momento, o consumo da força de trabalho, resultante da submissão dos trabalhadores a um processo acelerado e desumano de produção, exigiu uma intervenção, sob pena de tornar inviável a sobrevivência e a reprodução do próprio processo.
Quando Robert Dernham, proprietário de uma fábrica têxtil, preocupado com o fato de que seus operários não dispunham de nenhum cuidado médico a não ser aquele propiciado por instituições filantrópicas, procurou o Dr. Robert Baker, seu médico, pedindo que indicasse qual a maneira pela qual ele, como empresário, poderia resolver tal situação. Baker respondeu-lhe:
“Coloque no interior da sua fábrica o seu próprio médico, que servirá de intermediário entre você, os seus trabalhadores e o público. Deixe-o visitar a fábrica, sala por sala, sempre que existam pessoas trabalhando, de maneira que ele possa verificar o efeito do trabalho sobre as pessoas. E se ele verificar que qualquer dos trabalhadores está sofrendo a influência de causas que possam ser prevenidas, a ele competirá fazer tal prevenção. Dessa forma você poderá dizer: meu médico é a minha defesa, pois a ele dei toda a minha autoridade no que diz respeito à proteção da saúde e das condições físicas dos meus operários; se algum deles vier a sofrer qualquer alteração da saúde, o médico unicamente é que deve ser responsabilizado”.
A resposta do empregador foi a de contratar Baker para trabalhar na sua fábrica, surgindo, assim, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho.
Na verdade, despontam, na resposta do fundador do primeiro serviço médico de empresa, os elementos básicos da expectativa do capital quanto às finalidades de tais serviços:
- deveriam ser serviços dirigidos por pessoas de inteira confiança do empresário e que se dispusessem a defendê-lo;
- deveriam ser serviços centrados na figura do médico;
- a prevenção dos danos à saúde resultantes dos riscos do trabalho deveria ser tarefa eminentemente médica;
- a responsabilidade pela ocorrência dos problemas de saúde ficava transferida ao médico.
A implantação de serviços baseados nesse modelo rapidamente expandiu-se por outros países, paralelamente ao processo de industrialização e, posteriormente, aos países periféricos, com a transnacionalização da economia. A inexistência ou fragilidade dos sistemas de assistência à saúde, quer como expressão do seguro social, quer diretamente providos pelo Estado, via serviços de saúde pública, fez com que os serviços médicos de empresa passassem a exercer um papel vicariante, consolidando, ao mesmo tempo, sua vocação enquanto instrumento de criar e manter a dependência do trabalhador (e frequentemente também de seus familiares), ao lado do exercício direto do controle da força de trabalho.
No trecho “deveriam ser serviços dirigidos por pessoas de inteira confiança do empresário e que se dispusessem a defendê-lo” (ℓ. 39-41), o pronome oblíquo “o” exerce uma função coesiva, ao retomar, como seu referente, a expressão
- Afundador
- Bserviço médico
- Ctrabalho
- Dcapital
- Eempresário (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Conceito-chave: O pronome oblíquo “o” (assim como “a”, “os”, “as”) funciona como objeto direto e, quando usado para retomar algo já dito, exerce coesão referencial anafórica — ou seja, ele “aponta para trás” e substitui um termo anterior para evitar repetição. Para achar o referente, pergunte ao verbo: “defender o quê?” ou “defender quem?”. No trecho, o verbo é “defendê-lo” = “defender + o”. Quem o empresário quer que o médico defenda? Ele mesmo, o empresário.
- (A) Incorreta: “Fundador” é o Dr. Robert Baker, mas ele é quem contrata o médico, não quem é defendido; o pronome está ligado ao sujeito da oração anterior (“pessoas de inteira confiança do empresário”), que defendem o dono da fábrica.
- (B) Incorreta: “Serviço médico” é o objeto do serviço (o que se cria), não o alvo da defesa; além disso, o pronome “o” é masculino singular e “serviço” seria “defendê-lo” no sentido de defender a instituição, o que não faz sentido no contexto (defender a quem? ao empresário).
- (C) Incorreta: “Trabalho” é o contexto (medicina do trabalho), mas não é algo que se “defende” com lealdade; o pronome retoma um ser humano (pessoa), não um conceito abstrato.
- (D) Incorreta: “Capital” é o sistema econômico, mas o texto fala de uma relação direta entre o médico e o dono da fábrica; o pronome “o” não pode retomar “capital” porque isso exigiria “defendê-lo” no sentido de proteger o dinheiro, o que foge do sentido de “confiança pessoal”.
- (E) Correta: O pronome “o” retoma “empresário” — o dono da fábrica que pediu conselho ao Dr. Baker. A frase diz que os serviços deveriam ser dirigidos por pessoas leais ao empresário e que se dispusessem a defendê-lo (defender o empresário). A armadilha da banca está em confundir “defender” com “defender o serviço” ou “defender o trabalho”, mas o verbo “defender” exige um ser animado (pessoa) e o contexto imediato (“de inteira confiança do empresário”) entrega o referente: quem recebe a defesa é o patrão.
Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2015 Técnico Científico - Medicina do Trabalho. Reproduzida para fins de estudo.