Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa I · CESGRANRIO BASA 01/2015 (nº 5)
Da medicina do trabalho à saúde do trabalhador
A medicina do trabalho, enquanto especialidade médica, surge na Inglaterra, na primeira metade do século XIX, com a Revolução Industrial.
Naquele momento, o consumo da força de trabalho, resultante da submissão dos trabalhadores a um processo acelerado e desumano de produção, exigiu uma intervenção, sob pena de tornar inviável a sobrevivência e a reprodução do próprio processo.
Quando Robert Dernham, proprietário de uma fábrica têxtil, preocupado com o fato de que seus operários não dispunham de nenhum cuidado médico a não ser aquele propiciado por instituições filantrópicas, procurou o Dr. Robert Baker, seu médico, pedindo que indicasse qual a maneira pela qual ele, como empresário, poderia resolver tal situação. Baker respondeu-lhe:
“Coloque no interior da sua fábrica o seu próprio médico, que servirá de intermediário entre você, os seus trabalhadores e o público. Deixe-o visitar a fábrica, sala por sala, sempre que existam pessoas trabalhando, de maneira que ele possa verificar o efeito do trabalho sobre as pessoas. E se ele verificar que qualquer dos trabalhadores está sofrendo a influência de causas que possam ser prevenidas, a ele competirá fazer tal prevenção. Dessa forma você poderá dizer: meu médico é a minha defesa, pois a ele dei toda a minha autoridade no que diz respeito à proteção da saúde e das condições físicas dos meus operários; se algum deles vier a sofrer qualquer alteração da saúde, o médico unicamente é que deve ser responsabilizado”.
A resposta do empregador foi a de contratar Baker para trabalhar na sua fábrica, surgindo, assim, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho.
Na verdade, despontam, na resposta do fundador do primeiro serviço médico de empresa, os elementos básicos da expectativa do capital quanto às finalidades de tais serviços:
- deveriam ser serviços dirigidos por pessoas de inteira confiança do empresário e que se dispusessem a defendê-lo;
- deveriam ser serviços centrados na figura do médico;
- a prevenção dos danos à saúde resultantes dos riscos do trabalho deveria ser tarefa eminentemente médica;
- a responsabilidade pela ocorrência dos problemas de saúde ficava transferida ao médico.
A implantação de serviços baseados nesse modelo rapidamente expandiu-se por outros países, paralelamente ao processo de industrialização e, posteriormente, aos países periféricos, com a transnacionalização da economia. A inexistência ou fragilidade dos sistemas de assistência à saúde, quer como expressão do seguro social, quer diretamente providos pelo Estado, via serviços de saúde pública, fez com que os serviços médicos de empresa passassem a exercer um papel vicariante, consolidando, ao mesmo tempo, sua vocação enquanto instrumento de criar e manter a dependência do trabalhador (e frequentemente também de seus familiares), ao lado do exercício direto do controle da força de trabalho.
Uma reescritura possível do período “A resposta do empregador foi a de contratar Baker para trabalhar na sua fábrica, surgindo, assim, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho.” (ℓ. 32-34), preservando-se as relações semânticas e a coesão textual, é:
- AA resposta do empregador foi a de contratar Baker para trabalhar na sua fábrica, porque surgiu, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho.
- BA resposta do empregador foi a de contratar Baker para trabalhar na sua fábrica; desse modo, surgiu, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho. (alternativa correta)
- CA resposta do empregador foi a de contratar Baker para trabalhar na sua fábrica, o que surgiu, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho.
- DA resposta do empregador foi a de contratar Baker para trabalhar na sua fábrica, surgindo, contudo, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho.
- EA resposta do empregador foi a de contratar Baker, para trabalhar na sua fábrica surgindo, consoante, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: A oração reduzida de gerúndio “surgindo, assim” indica uma consequência da ação anterior (contratar Baker), e não uma causa, condição ou oposição. Para reescrever sem perder o sentido, trocamos o gerúndio por uma conjunção coordenativa conclusiva (“desse modo”, “portanto”, “por isso”), que mantém a mesma relação de resultado.
- (A) Incorreta: A conjunção “porque” introduz uma causa, invertendo a lógica: o serviço não surgiu porque ele contratou; ele contratou e então o serviço surgiu como consequência.
- (B) Correta: “Desse modo” é uma conjunção conclusiva que preserva exatamente a relação de consequência expressa pelo gerúndio “surgindo, assim”, mantendo a coesão e o sentido original.
- (C) Incorreta: O pronome “o que” não tem antecedente claro e cria uma estrutura agramatical (“o que surgiu o primeiro serviço”); além disso, transforma a consequência em uma explicação solta.
- (D) Incorreta: “Contudo” é uma conjunção adversativa (oposição), mas no original não há ideia de contraste entre contratar Baker e surgir o serviço; há uma relação de resultado.
- (E) Incorreta: A pontuação e a ordem das palavras quebram a coesão; “consoante” (conformidade) não expressa consequência e a vírgula após “Baker” separa indevidamente o verbo de seu complemento.
Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2015 Técnico Científico - Medicina do Trabalho. Reproduzida para fins de estudo.