Questão nº 8

Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE TCE MS 2025 SERVIDOR (nº 8)

CEBRASPE2025Comum Cargos 2 e 4Língua Portuguesa
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BONS DIAS!

Eu pertenço a uma família de profetas, après-coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha seus dezoito anos, mais ou menos.

Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coupe do milieu, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...

— Oh! meu senhô, fico.

— Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente. Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

— Artura não qué dizê nada, não, senhô...

— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo, tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Boas noites!


No texto CG2A2-I, o personagem-narrador

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

Conceito-chave: O texto é uma crônica de Machado de Assis com tom irônico. O narrador não liberta o escravo por bondade ou justiça, mas sim para usar o ato como propaganda pessoal e alavancar sua carreira política. A ironia está em ele se gabar de um gesto que, na prática, não mudou nada na vida do escravo.

  • (A) Correta: O narrador liberta Pancrácio não por justiça, mas porque vê nisso uma oportunidade de se promover ("quero ser deputado") e usar o fato como trunfo eleitoral, mantendo o ex-escravo sob seu controle com migalhas e maus-tratos.
  • (B) Incorreta: A "profecia" é uma ironia: ele diz que previu a lei "post factum" (depois do fato), ou seja, não é uma capacidade divina real, mas um deboche sobre como todos dizem que já sabiam do que ia acontecer.
  • (C) Incorreta: O jantar não tem causa social; é um teatro para os amigos verem, e ele mesmo ironiza o exagero das notícias ("trinta e três (anos de Cristo)").
  • (D) Incorreta: Ele não é um abolicionista verdadeiro; prova disso é que continua dando "petelecos", "pontapés" e "puxões de orelha" em Pancrácio, mostrando que a liberdade foi só no papel.
  • (E) Incorreta: Ele não se ressente do ato; pelo contrário, orgulha-se e planeja usá-lo politicamente. O "post factum" é só para zombar da própria esperteza, não para demonstrar culpa.

Armadilha do distrator mais tentador (D): A banca tenta fazer o aluno acreditar que o narrador é um "benfeitor" porque ele fala em "restituir a liberdade" e "dom de Deus". Mas a pegadinha é que todo o discurso dele é irônico: ele usa palavras bonitas para esconder que só quer vantagem política. O aluno que não percebe a ironia de Machado cai na letra D.

Fonte: CEBRASPE TCE MS 2025 SERVIDOR Conhecimentos Comuns (Cargos 2 e 4). Reproduzida para fins de estudo.

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