Questão nº 17
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE TCE MS 2025 SERVIDOR (nº 17)
BONS DIAS!
Eu pertenço a uma família de profetas, après-coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha seus dezoito anos, mais ou menos.
Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coupe do milieu, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...
— Oh! meu senhô, fico.
— Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente. Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
— Artura não qué dizê nada, não, senhô...
— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo, tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites!
Assinale a opção correta no que se refere aos aspectos linguísticos do seguinte trecho do texto CG2A2-I: "Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade."
- AO segmento "efeitos da liberdade" funciona sintaticamente como aposto, pois retoma e explica o termo "um peteleco".
- BO emprego do sinal de dois pontos sinaliza uma pausa breve entre os termos da oração e introduz um aposto — "aceitou até um peteleco".
- CA expressão temporal "no dia seguinte" poderia ser deslocada, com o devido ajuste de iniciais maiúsculas e minúsculas, para o início do período, sem prejuízo da correção gramatical ou dos sentidos do texto.
- DNa estrutura "por me não escovar bem as botas", o pronome átono pode ocupar, com correção, a posição proclítica ao verbo — por não me escovar bem as botas —, sem prejuízo do sentido, tampouco da correção gramatical. (alternativa correta)
- EA estrutura "um peteleco que lhe dei" poderia ser reescrita, com correção gramatical e manutenção dos sentidos do texto, como um peteleco que lhe foi dado.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Conceito-chave: Colocação pronominal trata de onde encaixar o pronome átono (me, te, lhe, o, a, nos, vos) em relação ao verbo. Com palavra atrativa (como "não", "nunca", "que", "quem"), o pronome deve vir antes do verbo (próclise); sem atrativa, pode vir depois (ênclise) ou, em certos casos, no meio (mesóclise). A norma culta proíbe começar frase com pronome átono.
- (A) Incorreta: "efeitos da liberdade" não é aposto de "um peteleco"; é uma oração reduzida (ou comentário do narrador) que explica a consequência irônica do ato, não retoma o substantivo "peteleco".
- (B) Incorreta: os dois pontos não introduzem aposto; eles anunciam uma explicação/especificação do que "tudo" significa, e "aceitou até um peteleco" é uma oração coordenada explicativa, não um termo sintático isolado.
- (C) Incorreta: deslocar "no dia seguinte" para o início do período é gramaticalmente possível, mas altera o sentido original, pois no texto ele está ligado diretamente ao verbo "dei" (especifica quando o peteleco foi dado), e no início ficaria ambíguo (poderia referir-se a "aceitou").
- (D) Correta: a palavra "não" é um advérbio de negação e fator de próclise obrigatória; a forma original "por me não escovar" (com o pronome entre "me" e o verbo) é arcaica, mas a reescrita "por não me escovar" (próclise ao verbo "escovar") é a colocação padrão atual, mantendo sentido e correção.
- (E) Incorreta: "que lhe dei" (voz ativa, 1ª pessoa) e "que lhe foi dado" (voz passiva, 3ª pessoa) mudam o foco e o sujeito da ação; além disso, "lhe" na passiva ficaria ambíguo (quem deu? o narrador), alterando o sentido original do texto.
Armadilha da banca na (C): A pegadinha está em achar que deslocar um adjunto adverbial de tempo é sempre inofensivo. A banca explora a ambiguidade semântica: no original, "no dia seguinte" está claramente preso a "dei" (o ato de dar o peteleco); ao mover para o início, o leitor pode associá-lo a "aceitou", mudando a cronologia dos fatos. A correção gramatical existe, mas a manutenção do sentido não, e a questão exige ambos.
Fonte: CEBRASPE TCE MS 2025 SERVIDOR Auditor de Controle Externo - Área: Direito. Reproduzida para fins de estudo.