Questão nº 31
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2026 (nº 31)
Julgue os itens seguintes, acerca dos sentidos e estruturas linguísticas do texto de Antonio Candido.
Os ensaios da primeira parte deste livro tentam analisar alguns casos do que chamei redução estrutural, isto é, o processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que seja estudada em si mesma, como algo autônomo. O meu propósito é fazer uma crítica integradora, capaz de mostrar (não apenas enunciar teoricamente, como é hábito) de que maneira a narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulados a fim de se tornarem aspectos de uma organização estética regida pelas suas próprias leis, não as da natureza, da sociedade ou do ser. No entanto, natureza, sociedade e ser parecem presentes em cada página, tanto assim que o leitor tem a impressão de estar em contato com realidades vitais, de estar aprendendo, participando, aceitando ou negando, como se estivesse envolvido nos problemas que eles suscitam.
Antonio Candido. Prefácio. In: O discurso e a cidade. São Paulo, Rio de Janeiro: Duas Cidades, Ouro sobre Azul, 2004, p. 9.
O texto expõe um paradoxo: a produção literária deve ser autônoma, ou seja, deve distanciar-se da realidade, para que lhe seja possível alcançar a representação efetiva do mundo, da natureza, da sociedade e do ser, que só assim podem ser experimentados pelo leitor como "realidades vitais".
Resposta comentada
O texto diz que a literatura se constrói com materiais do mundo real (natureza, sociedade, ser), mas os transforma em componentes de uma estrutura própria, com leis próprias. Isso é a redução estrutural: o real entra na obra, mas deixa de ser "real" e passa a ser "literário". O paradoxo é justamente esse: quanto mais a obra se organiza por leis próprias (autonomia), mais o leitor sente que está diante de "realidades vitais" — ou seja, o distanciamento da realidade bruta é o que permite representá-la de modo eficaz.
- Correta: Certo. O texto afirma que a narrativa se constitui a partir de materiais não literários, tornando-se autônoma (regida por leis próprias, não pelas da natureza/sociedade/ser) e, ainda assim, produz no leitor a impressão de contato com realidades vitais — exatamente o paradoxo descrito no item.
Fica de olho: a banca costuma torcer isso para o lado oposto, dizendo que o texto defende que a literatura deve copiar/refletir passivamente a realidade ou que a autonomia estética impede o leitor de experimentar o mundo como real — se aparecer "espelho fiel do real" ou "autonomia exclui a sensação de realidade", o item vira Errado.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2026 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.