Questão nº 11

Questão de Língua Portuguesa · FGV TJ-MS 2024 (nº 11)

FGV2024ComumLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Texto – A bananeira está em perigo. Conheça as soluções.
(Fragmento; adaptado)

Robusta, nutritiva e abundante, ela é a fruta mais consumida do mundo. Mas também tem um ponto fraco: as bananeiras são geneticamente idênticas, clones umas das outras. Isso significa que uma doença poderia arrasar a produção mundial. Entenda o que ameaça a banana – e a corrida para tentar salvá-la.

Por Bruno Garattoni, Renata Cardoso e Leonardo Pujol

§1º Carlos II, rei da Espanha entre 1665 e 1700, também era conhecido como Carlos, o Enfeitiçado. O apelido veio da aparência dele, que tinha o rosto estranhamente deformado, do seu déficit cognitivo (só começou a falar aos 4 anos de idade) e dos muitos problemas de saúde que enfrentou ao longo da vida.

§2º A bananeira é o oposto disso. Trata-se de uma planta robusta e viçosa, que cresce rápido e dá muitos frutos: a banana é a fruta mais consumida do mundo, com 125 milhões de toneladas produzidas por ano [...].

§3º Carlos II foi o resultado de uma série de casamentos consanguíneos, em que os membros da dinastia Habsburgo tiveram filhos entre si ao longo de várias gerações. [...] Mas a prática teve uma consequência terrível: os descendentes ficaram mais e mais parecidos geneticamente, e foram acumulando mutações causadoras de doenças.

[...]

§4º A bananeira domesticada, cujas frutas nós comemos, não tem sementes. Isso a torna muito mais agradável de consumir. E também significa que a planta se reproduz de forma assexuada: o agricultor simplesmente corta um pedaço dela e enterra em outro lugar.

§5º Nasce uma nova bananeira – que, eis o problema, é geneticamente idêntica à anterior. Ela não tem, como Carlos II não teve, um pai e uma mãe com genes bem diferentes, cuja mistura aperfeiçoa o DNA e ajuda a proteger contra doenças. As bananeiras são clones – por isso, um único patógeno pode exterminá-las todas.

§6º E já existe um: o Fusarium oxysporum. Trata-se de um fungo que se desenvolve no solo, e infecta as raízes das bananeiras, impedindo que elas puxem água e nutrientes.

§7º Após a infecção, o solo fica contaminado por mais de 30 anos, e não há nada a fazer: o F. oxysporum é imune a todos os agrotóxicos.

[...]

O preço da banana

[...]

§8º A banana comestível teria surgido no sudoeste asiático. Acredita-se que, entre 7 mil e 5 mil a.C., os nativos da Papua-Nova Guiné teriam feito cruzamentos e domesticado as bananeiras selvagens (cheias de sementes duras, de quebrar os dentes). E voilà: desenvolveram bananeiras que produzem frutos sem sementes.

§9º Aqueles pontinhos pretos dentro da banana, caso você esteja se perguntando, não são sementes: trata-se de óvulos não fecundados. Isso porque os papuásios descobriram um método curioso para reproduzir a planta: bastava cortar e replantar um pedaço dela.

[...]

§10º Os séculos se passaram, e, à medida que as rotas comerciais foram se espalhando pelo mundo, o mesmo aconteceu com a banana [...].

§11º Foi quando ela chegou aos EUA, contudo, que a coisa mudou de patamar. [...] Em menos de duas décadas, os americanos já estavam comendo mais bananas do que maçãs ou laranjas. De olho nesse mercado, a Boston Fruit Company começou a comprar terras na América Central para cultivo e exportação da banana a partir de 1885.

§12º Criada em 1899, a United Fruit Company (UFC) – atual Chiquita Brands International – se tornou a maior empresa do setor. Era tão poderosa que, na primeira metade do século 20, mandava nos governos da Guatemala e de Honduras, onde mantinha plantações – foi daí que surgiu a expressão "república das bananas".

[...]

§13º Em 1951, Juan Jacobo Árbenz Guzmán, de apenas 38 anos, foi eleito presidente da Guatemala com a promessa de fazer duas reformas: uma trabalhista e outra agrária, que garantissem salários justos e devolvessem parte da terra aos pequenos agricultores.

§14º A United Fruit, obviamente, não gostou. Se opôs duramente ao novo governo, e em agosto de 1953 conseguiu convencer o presidente dos EUA, Dwight D. Eisenhower, a patrocinar um golpe de estado na Guatemala.

§15º A operação, de codinome PBSuccess, foi organizada pela CIA – que armou, financiou e treinou 480 homens, liderados pelo coronel guatemalteco Carlos Castillo Armas, e também organizou um bloqueio naval.

§16º As tropas de Castillo invadiram o país em 18 de junho de 1954, o Exército não reagiu – e, nove dias depois, o presidente Guzmán acabou forçado a renunciar. A Guatemala mergulhou em uma guerra civil que duraria 36 anos. E a United retomou seu poder. [...]


Nas alternativas abaixo, vemos, à esquerda, uma passagem do texto 1 e, à direita, essa mesma passagem reescrita com o acréscimo ou supressão de pelo menos uma vírgula.

O único caso em que essa alteração NÃO produz mudança substancial de significado NEM acarreta erro gramatical é:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

A vírgula é um sinal de pontuação essencial para a clareza e correção de um texto, pois ela indica pausas, separa elementos e, principalmente, pode alterar o sentido da frase ou evitar erros gramaticais.

  • (A) Incorreta: A inserção das vírgulas transforma "estranhamente" de um advérbio de modo que modifica diretamente "deformado" (como em "deformado de forma estranha") em um adjunto adverbial deslocado que expressa uma observação ou avaliação sobre o fato ("o rosto estava deformado, e isso era estranho"). Há uma mudança sutil, mas perceptível, no foco e na nuance do significado.
  • (B) Incorreta: A supressão da vírgula antes de "o Enfeitiçado" cria um erro gramatical. "o Enfeitiçado" é um aposto explicativo do nome "Carlos", e apostos explicativos devem ser separados por vírgula. Sem ela, a expressão soa como parte integrante do nome, o que não é o caso de um apelido explicativo.
  • (C) Incorreta: A supressão das vírgulas que isolam "rei da Espanha entre 1665 e 1700" cria um erro gramatical. Essa expressão é um aposto explicativo de "Carlos II" e, como tal, deve ser isolada por vírgulas para indicar que se trata de uma informação adicional e não restritiva.
  • (D) Correta: A vírgula antes da conjunção "e" que liga duas orações com o mesmo sujeito ("os descendentes ficaram..." e "foram acumulando...") é facultativa. Sua presença pode indicar uma pausa ou dar um leve destaque à segunda oração, mas sua ausência não causa erro gramatical nem altera substancialmente o significado da frase. Ambas as formas são consideradas corretas na norma-padrão.
  • (E) Incorreta: A supressão das vírgulas transforma a oração subordinada adjetiva explicativa ("cujas frutas nós comemos") em uma oração subordinada adjetiva restritiva. Isso muda drasticamente o significado: a versão original afirma que toda bananeira domesticada (que é a que comemos) não tem sementes; a versão modificada implicaria que apenas as bananeiras domesticadas cujas frutas nós comemos não têm sementes, sugerindo que existem outras bananeiras domesticadas cujas frutas não comemos e que poderiam ter sementes.

Fonte: FGV TJ-MS 2024 Conhecimentos Comuns (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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