Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FGV ALE-RO 2018 (nº 9)
Texto 1.
Do Casamento
O casamento foi a maneira que a humanidade encontrou de propagar a espécie sem causar falatório na vizinhança. As tradições matrimoniais se transformaram através dos tempos e variam de cultura para cultura. Em certas sociedades primitivas o tempo gasto nas preliminares do casamento – corte, namoro, noivado etc. – era abreviado. O macho escolhia uma fêmea, batia com um tacape na sua cabeça e a arrastava para a sua caverna. Com o passar do tempo este método foi sendo abandonado, por pressão dos buffets, das lojas de presente e das mulheres, que não admitiam um período pré-conjugal tão curto. O homem precisava aproximar-se dela, cheirar seus cabelos, grunhir no seu ouvido, mordiscar a sua orelha e só então, quando ela estivesse distraída, bater com o tacape na sua cabeça e arrastá-la para a caverna. (fragmento)
VERÍSSIMO, Luís Fernando, Comédias da Vida Privada. Ed. LPm. 1994.
“O macho escolhia uma fêmea, batia com um tacape na sua cabeça e a arrastava para a sua caverna.”
Assinale a opção que apresenta o problema de construção dessa frase do texto.
- AA polissemia do vocábulo “fêmea”.
- BA ambiguidade do possessivo “sua” em “sua caverna”. (alternativa correta)
- CA colocação do pronome pessoal “a”.
- DA seleção vocabular por “macho” em lugar de “homem”.
- EA predicação verbal do verbo “arrastava”.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: Ambiguidade é quando uma frase pode ser entendida de mais de uma maneira. O possessivo “sua” é um pronome que se refere a alguém já mencionado; se houver dois possíveis donos na frase, cria-se a ambiguidade.
- (A) Incorreta: “Fêmea” aqui tem sentido claro de “mulher” (em tom irônico), e a polissemia não gera dúvida de interpretação no contexto.
- (B) Correta: O possessivo “sua” em “sua caverna” pode se referir tanto ao “macho” (a caverna dele) quanto à “fêmea” (a caverna dela), gerando dupla leitura — exatamente o problema de construção apontado.
- (C) Incorreta: O pronome “a” em “a arrastava” está corretamente colocado (ênclise após verbo), sem erro de colocação pronominal.
- (D) Incorreta: A escolha de “macho” é intencional (tom irônico e primitivista do texto), não configurando erro de construção.
- (E) Incorreta: O verbo “arrastava” está bem empregado como transitivo direto, com objeto “a” (a fêmea), sem problema de predicação.
Armadilha da banca: A letra A tenta atrair você pelo sentido pejorativo de “fêmea”, mas o texto usa isso de propósito (ironia). A pegadinha é confundir “escolha estilística” com “problema gramatical”. Já a letra B é sutil: você lê “sua caverna” e assume que é do macho, mas a gramática permite atribuir à fêmea — e é essa dupla possibilidade que a banca cobra.
Fonte: FGV ALE-RO 2018 Assistente Legislativo - Técnico em Informática (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.