Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT5 2022 (nº 8)
Língua Portuguesa
Atenção: Leia o trecho da crônica "Retrato de velho", de Carlos Drummond de Andrade, para responder às questões de 1 a 10.[1]
Aos 85 anos, goza de saúde brônzea e quer trabalhar, mas trabalho que dê dinheiro, não essa milonga de mover os braços por
desfastio. Deseja manter-se independente, estão ouvindo? O diabo é que não arranja serviço, e tem de viver em casa dos filhos
− três, em três lugares distintos. No sítio de Mangaratiba, o genro entra em pânico à sua chegada: o velho está sempre bulindo
nas plantas, dando ordens, contrariando instruções do dono.
A filha de Niterói, ciente das complicações, adverte-o:
− Por que o senhor não vai plantar em terreno ainda não cultivado? O sítio lá tem cinco alqueires, pois então escolha o mais
distante e faça a sua horta nele.
− Planto onde eu quiser. Não faltava mais nada! Um homem como eu, já idoso…[5]
E cisma de ganhar dinheiro na cidade, podando árvore de rua.
− Arranjo uma tesoura grande e saio por aí caçando serviço. Estou novo ainda, sabe? E a prefeitura está carecendo de gente
disposta.
Não arranja nada, e a prefeitura não lhe sente a falta. Vai para Vitória, em casa do terceiro filho, e pensa em adquirir um rebolo
para amolar facas, com que atenda às necessidades do bairro. Ponderam-lhe:
− Eu, se fosse o senhor, fazia um orquidário. É tão lindo, distrai tanto. E depois, há espécies fabulosas, que rendem um colosso.
− É? Leva vinte anos para dar uma parasita que preste, não tenho lucro nenhum. Ora-e-essa![10]
Tem horror a criança. Solenemente, faz queixa do bisneto, que lhe sumiu com a palha de cigarro, para vingar-se de seus ralhos
intempestivos. Menino é bicho ruim, comenta. Ao chegar a avô, era terno e até meloso, mas a idade o torna coriáceo.
No trocar de roupa, atira ao chão as peças usadas. Alguém as recolhe à cesta, para lavar. Ele suspeita que pretendem subtraí-las,
vai à cesta, vasculha, retira o que é seu, lava-o, passa-o. Mal, naturalmente.
− Da próxima vez que ele vier, diz a nora, terei de fechar o registro para evitar que desperdice água.
Espanta-se com os direitos concedidos às empregadas. Onde se viu? Isso aqui é o paraíso das criadas. A patroa acorda cedo,
para despertar a cozinheira. Ele se levanta mais cedo ainda, e vai acordar a dona da casa:
− Acorda, sua mandriona, o dia já clareou![15]
As empregadas reagem contra a tirania, despedem-se. E sem empregadas, sua presença ainda é mais terrível.
As netas adolescentes recebem amigos. Um deles, o pintor, foi acometido por um mal súbito e teve de deitar-se na cama de
uma das garotas. Indignação: Que pouca-vergonha é essa? Esse bandalho aí, conspurcando o leito de uma virgem? Ou quem sabe
se nem é mais virgem?
− Vovô, o senhor é um monstro!
E é um custo impedir que ele escaramuce o doente para fora de casa.
− A senhora deixa suas filhas irem ao baile sozinhas com rapazes? Diga, a senhora deixa?[20]
− Não vão sozinhas, vão com os rapazes.
− Pior ainda! Muito pior! A obrigação dos pais é acompanhar as filhas a tudo quanto é festa.
− Papai, a gente nem pode entrar lá com as meninas. É coisa de brotos.
− É, não é? Pois me dá depressa o chapéu para eu ir lá dizer poucas e boas!
Não se sabe o que fazer dele. Que fim se pode dar a velhos implicantes? O jeito é guardá-lo por três meses e deixá-lo ir para
outra casa, brigado. Mais três meses, e nova mudança nas mesmas condições. O velho é duro:[25]
− Vocês me deixam esbodegado, vocês são insuportáveis! − queixa-se ao sair. Mas volta.
− Descobri que paciência é uma forma de amor − diz-me uma das filhas, sorrindo.(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. A bolsa e a vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)
Um novo vocábulo pode ser formado quando passa de uma classe gramatical a outra, sem a modificação de sua forma. É o que se denomina derivação imprópria. Constitui exemplo de derivação imprópria o termo sublinhado em:
- ANo trocar de roupa, atira ao chão as peças usadas. (11º parágrafo). (alternativa correta)
- BA patroa acorda cedo, para despertar a cozinheira. (13º parágrafo).
- CLeva vinte anos para dar uma parasita que preste, não tenho lucro nenhum. (9º parágrafo).
- DPor que o senhor não vai plantar em terreno ainda não cultivado? (3º parágrafo).
- EE cisma de ganhar dinheiro na cidade, podando árvore de rua. (5º parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Derivação imprópria é quando uma palavra muda de classe gramatical sem alterar sua forma, ou seja, a mesma palavra passa a ter uma função diferente na frase. Por exemplo, um verbo pode virar um substantivo.
A) Correta: O termo "trocar" é originalmente um verbo. No trecho "No trocar de roupa", ele está precedido pelo artigo "o" (contraído com a preposição "em" formando "no"), o que o transforma em um substantivo, significando "o ato de trocar". Houve uma mudança de classe gramatical (de verbo para substantivo) sem alteração na forma da palavra, caracterizando a derivação imprópria.
B) Incorreta: "despertar" é um verbo no infinitivo. Na frase, ele mantém sua função verbal, indicando uma ação ("para despertar a cozinheira").
C) Incorreta: "dar" é um verbo no infinitivo. Na frase, ele mantém sua função verbal, indicando uma ação ("para dar uma parasita").
D) Incorreta: "plantar" é um verbo no infinitivo. Na frase, ele mantém sua função verbal, indicando uma ação ("não vai plantar").
E) Incorreta: "ganhar" é um verbo no infinitivo. Na frase, ele mantém sua função verbal, indicando uma ação ("cisma de ganhar dinheiro"). A armadilha aqui é que, assim como nas outras alternativas incorretas, o verbo no infinitivo pode parecer substantivado em alguns contextos, mas sem um determinante (como um artigo) que o transforme em substantivo, ele continua funcionando como verbo.
Fonte: FCC TRT5 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Agente da Polícia Judicial (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.