Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT5 2022 (nº 4)
Língua Portuguesa
Atenção: Leia o trecho da crônica "Retrato de velho", de Carlos Drummond de Andrade, para responder às questões de 1 a 10.[1]
Aos 85 anos, goza de saúde brônzea e quer trabalhar, mas trabalho que dê dinheiro, não essa milonga de mover os braços por desfastio. Deseja manter-se independente, estão ouvindo? O diabo é que não arranja serviço, e tem de viver em casa dos filhos − três, em três lugares distintos. No sítio de Mangaratiba, o genro entra em pânico à sua chegada: o velho está sempre bulindo nas plantas, dando ordens, contrariando instruções do dono.
A filha de Niterói, ciente das complicações, adverte-o:
− Por que o senhor não vai plantar em terreno ainda não cultivado? O sítio lá tem cinco alqueires, pois então escolha o mais distante e faça a sua horta nele.
− Planto onde eu quiser. Não faltava mais nada! Um homem como eu, já idoso…[5]
E cisma de ganhar dinheiro na cidade, podando árvore de rua.
− Arranjo uma tesoura grande e saio por aí caçando serviço. Estou novo ainda, sabe? E a prefeitura está carecendo de gente disposta.
Não arranja nada, e a prefeitura não lhe sente a falta. Vai para Vitória, em casa do terceiro filho, e pensa em adquirir um rebolo para amolar facas, com que atenda às necessidades do bairro. Ponderam-lhe:
− Eu, se fosse o senhor, fazia um orquidário. É tão lindo, distrai tanto. E depois, há espécies fabulosas, que rendem um colosso.
− É? Leva vinte anos para dar uma parasita que preste, não tenho lucro nenhum. Ora-e-essa![10]
Tem horror a criança. Solenemente, faz queixa do bisneto, que lhe sumiu com a palha de cigarro, para vingar-se de seus ralhos intempestivos. Menino é bicho ruim, comenta. Ao chegar a avô, era terno e até meloso, mas a idade o torna coriáceo.
No trocar de roupa, atira ao chão as peças usadas. Alguém as recolhe à cesta, para lavar. Ele suspeita que pretendem subtraí-las, vai à cesta, vasculha, retira o que é seu, lava-o, passa-o. Mal, naturalmente.
− Da próxima vez que ele vier, diz a nora, terei de fechar o registro para evitar que desperdice água.
Espanta-se com os direitos concedidos às empregadas. Onde se viu? Isso aqui é o paraíso das criadas. A patroa acorda cedo, para despertar a cozinheira. Ele se levanta mais cedo ainda, e vai acordar a dona da casa:
− Acorda, sua mandriona, o dia já clareou![15]
As empregadas reagem contra a tirania, despedem-se. E sem empregadas, sua presença ainda é mais terrível.
As netas adolescentes recebem amigos. Um deles, o pintor, foi acometido por um mal súbito e teve de deitar-se na cama de uma das garotas. Indignação: Que pouca-vergonha é essa? Esse bandalho aí, conspurcando o leito de uma virgem? Ou quem sabe se nem é mais virgem?
− Vovô, o senhor é um monstro!
E é um custo impedir que ele escaramuce o doente para fora de casa.
− A senhora deixa suas filhas irem ao baile sozinhas com rapazes? Diga, a senhora deixa?[20]
− Não vão sozinhas, vão com os rapazes.
− Pior ainda! Muito pior! A obrigação dos pais é acompanhar as filhas a tudo quanto é festa.
− Papai, a gente nem pode entrar lá com as meninas. É coisa de brotos.
− É, não é? Pois me dá depressa o chapéu para eu ir lá dizer poucas e boas!
Não se sabe o que fazer dele. Que fim se pode dar a velhos implicantes? O jeito é guardá-lo por três meses e deixá-lo ir para outra casa, brigado. Mais três meses, e nova mudança nas mesmas condições. O velho é duro:[25]
− Vocês me deixam esbodegado, vocês são insuportáveis! − queixa-se ao sair. Mas volta.
− Descobri que paciência é uma forma de amor − diz-me uma das filhas, sorrindo.(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. A bolsa e a vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)
Retoma um termo mencionado anteriormente no texto a palavra sublinhada em:
- AAo chegar a avô, era terno e até meloso, mas a idade o torna coriáceo. (10º parágrafo). (alternativa correta)
- BA obrigação dos pais é acompanhar as filhas a tudo quanto é festa. (21º parágrafo).
- CUm deles, o pintor, foi acometido por um mal súbito e teve de deitar-se na cama de uma das garotas. (16º parágrafo).
- D− Vovô, o senhor é um monstro! (17º parágrafo).
- EQue fim se pode dar a velhos implicantes? (24º parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Coesão referencial é quando uma palavra ou expressão no texto se refere a outra que já foi mencionada (ou será mencionada), ajudando a manter a ligação entre as ideias e evitando repetições. Geralmente, pronomes, advérbios e sinônimos são usados para isso.
(A) Correta: O pronome pessoal oblíquo "o" retoma o sujeito da oração, que é "o velho" (mencionado implicitamente ou explicitamente no contexto anterior), evitando a repetição de "a idade torna o velho coriáceo".
(B) Incorreta: A palavra "a" é uma preposição, que liga o verbo "acompanhar" ao seu complemento "tudo quanto é festa". Não retoma um termo anterior. A armadilha da banca aqui é que "a" pode ser artigo, preposição ou pronome. Neste caso, é preposição, sem função referencial.
(C) Incorreta: A palavra "o" é um artigo definido que acompanha o substantivo "pintor". Embora "pintor" seja um dos "deles", o "o" em si não tem função referencial de retomar um termo, mas sim de determinar o substantivo.
(D) Incorreta: A palavra "o" é um artigo definido que acompanha o substantivo "senhor". Assim como na alternativa C, não tem função referencial de retomar um termo.
(E) Incorreta: A palavra "a" é uma preposição, que introduz o complemento indireto do verbo "dar" ("dar a quem?"). Não retoma um termo anterior.
Fonte: FCC TRT5 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico Área Apoio Especializado TRT5 2022) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.