Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT23 2022 (nº 4)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 10, considere o poema do escritor mato-grossense Manoel de Barros.
O lugar onde a gente morava quase só tinha bicho
solidão e árvores.
Meu avô namorava a solidão.
Ele era um florilégio de abandono.
De tudo que me restou sobre aquele avô foi esta
imagem: ele deitado na rede com a sua namorada, mas
se a gente o retirasse da rede por alguma necessidade,
a solidão ficava destampada.
Oh, a solidão destampada!
Essa imagem da solidão que ficara dentro de mim por
anos.
Ah, o pai! O pai vaquejava e vaquejava.
Ele tinha um olhar soberbo de ave.
E nos ensinava a liberdade.
A gente então saía vagabundeando pelos matos sem aba.
Chegou que alcançamos a beira de um rio.
A manhã estava pousada na beira do rio desaberta moda
um pássaro.
Nessa hora já o morro encostava no sol.
Logo adiante vimos um quati a lamber um osso de ema.
A tarde crescia por dentro do mato.
O lugar nos perdera de rumo.
A gente se sentia como um pedaço de formiga perdida
na estrada.
Bernardo completava o abandono.
Logo encontramos uma criame de caracóis nas areias
do rio.
Quase todos os caracóis eram viúvos de suas lesmas.
Contam que os urubus, finórios, desciam naquele lugar
para degustar as lesmas vivas.
Se diz que este recanto teria sido um pedaço do
Mar de Xaraiés.
Na beira da noite a gente estava sem rumo.
Bernardo apareceu e disse que vento é cavalo.
Então montamos na garupa do vento e logo chegamos
em casa.
A mãe aflitíssima estava.
Ela cuidava de todos: lavava, passava e cozinhava
para todos.
Porém à noite a mãe ainda encontrava uma horinha
para o seu violino.
Ela tocava para nós Vivaldi.
E a gente ficava pendurado em lágrimas.
Um dia que outro contei para a Mãe que tinha visto
um passarinho a mastigar um pedaço de vento. A Mãe
disse outra vez: Já vem você com suas visões! Isso é
travessura de sua imaginação.
É a voz de Deus que habita nas crianças, nos passarinhos
e nos tontos.
A infância da palavra.(Adaptado de: BARROS, Manoel de. Menino do mato. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015)
O eu lírico recorre à figura de linguagem denominada metonímia em:
- A"O lugar onde a gente morava quase só tinha bicho" (verso 1)
- B"Ela tocava para nós Vivaldi." (verso 42) (alternativa correta)
- C"A gente se sentia como um pedaço de formiga perdida" (verso 23)
- D"Ah, o pai! O pai vaquejava e vaquejava." (verso 12)
- E"A mãe aflitíssima estava." (verso 37)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A metonímia é uma figura de linguagem que consiste na substituição de uma palavra por outra com a qual ela mantém uma relação de proximidade, contiguidade ou associação lógica, mas não de semelhança. Por exemplo, o autor pela obra, o continente pelo conteúdo, a parte pelo todo, o instrumento pela pessoa que o usa.
(A) Incorreta: A frase descreve literalmente a presença de animais no lugar, sem substituição de termos associados.
(B) Correta: "Vivaldi" é o nome do compositor, mas na frase, ele é usado para se referir à música composta por Vivaldi. É um caso clássico de metonímia (o autor pela obra).
(C) Incorreta: A presença da palavra "como" indica uma comparação explícita, caracterizando uma símile, não uma metonímia. Esta é a armadilha da banca, pois comparações são figuras de linguagem, mas diferentes da metonímia.
(D) Incorreta: "Vaquejava" é um verbo que significa trabalhar como vaqueiro ou lidar com o gado, usado aqui em seu sentido literal dentro do contexto do pai.
(E) Incorreta: A frase descreve diretamente o estado de espírito da mãe, sem qualquer substituição metonímica.
Fonte: FCC TRT23 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.