Questão nº 8

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT18 2022 (nº 8)

FCC2022Comum Técnico - Área AdministrativaLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Atenção: Leia a crônica “Pai de família sem plantação”, de Paulo Mendes Campos, para responder às questões de números 1 a 12.

Sempre me lembro da história exemplar de um mineiro que veio até a capital, zanzou por aqui, e voltou para contar em casa os assombros da cidade. Seu velho pai balançou a cabeça; fazendo da própria dúvida a sua sabedoria: “É, meu filho, tudo isso pode ser muito bonito, mas pai de família que não tem plantação, não sei não...”

Às vezes morro de nostalgia. São momentos de sinceridade, nos quais todo o meu ser denuncia minha falsa condição de morador do Rio de Janeiro. A trepidação desta cidade não é minha. Sou mais, muito mais, querendo ou não querendo, de uma indolência de sol parado e gerânios. Minha terra é outra, minha gente não é esta, meu tempo é mais pausado, meus assuntos são mais humildes, minha fala, mais arrastada. O milho pendoou? Vamos ao pasto dos Macacos matar codorna? A vaca do coronel já deu cria? Desta literatura rural é que preciso.

Eis em torno de mim, a cingir-me como um anel, o Rio de Janeiro. Velozes automóveis me perseguem na rua, novos edifícios crescem fazendo barulho em meus ouvidos, a guerra comercial não me dá tréguas, o clamor do telefone me põe a funcionar sem querer, a vaga se espraia e repercute no meu peito, minha inocência não percebe o negócio de milhões articulado com um sorriso e um aperto de mão. Pois eu não sou daqui.

Vivo em apartamento só por ter cedido a uma perversão coletiva; nasci em casa de dois planos, o de cima, da família, sobre tábuas lavadas, claro e sem segredos, e o de baixo, das crianças, o porão escuro, onde a vida se tece de nada, de pressentimentos, de imaginação, do estofo dos sonhos. A maciez das mãos que me cumprimentam na cidade tem qualquer coisa de peixe e mentira; não sou desta viração mesclada de maresia; não sei comer este prato vermelho e argênteo de crustáceos; não entendo os sinais que os navios trocam na cerração além da minha janela. Confio mais em mãos calosas, meus sentidos querem uma brisa à boca da noite cheirando a capim-gordura; um prato de tutu e torresmos para minha fome; e quando o trem distante apitasse na calada, pelo menos eu saberia em que sentimentos desfalecer.

Ando bem sem automóvel, mas sinto falta de uma charrete. Com um matungo que me criasse amizade, eu visitaria o vigário, o médico, o turco, o promotor que lê Victor Hugo, o italiano que tem uma horta, o ateu local, o criminoso da cadeia, todos eles muitos meus amigos. Se aqui não vou à igreja, lá pelo menos frequentaria a doçura do adro, olhando o cemitério em aclive sobre a encosta, emoldurado em muros brancos. Aqui jaz Paulo Mendes Campos. Por favor, engavetem-me com simplicidade do lado da sombra. É tudo o que peço. E não é preciso rezar por minha alma desgovernada.

(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Balé do pato. São Paulo: Ática, 2012)


O cronista disse: − Não é preciso rezar por minha alma desgovernada.

Ao ser transposto para o discurso indireto, o texto acima assume a seguinte redação:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

Para transformar o discurso direto (as palavras exatas de alguém) em discurso indireto (contar o que alguém disse), precisamos fazer algumas mudanças. As principais são: usar um verbo introdutório (como "disse que"), ajustar os pronomes (eu/minha para ele/sua) e, crucialmente, mudar o tempo verbal da frase original se o verbo introdutório estiver no passado.

Original (Discurso Direto): O cronista disse: − Não é preciso rezar por minha alma desgovernada.

Análise das mudanças necessárias:

  1. Verbo introdutório: "disse que".
  2. Pronome: "minha alma" (referindo-se ao cronista) deve virar "sua alma".
  3. Tempo verbal: "é preciso" (presente do indicativo) deve ser ajustado, pois o verbo introdutório "disse" está no passado. O presente do indicativo, quando reportado por um verbo no passado, geralmente se transforma em pretérito imperfeito do indicativo ("era preciso").

Análise das alternativas:

  • A) Incorreta: A estrutura ainda é de discurso direto (com o travessão), e não há o "que" introdutório. Além disso, "precisava" é o tempo verbal correto, mas a estrutura geral está errada.
  • B) Incorreta: A estrutura ainda é de discurso direto. O tempo verbal "precisaria" (futuro do pretérito) não é a transformação correta para "é preciso". O pronome "minha" também está incorreto para o discurso indireto.
  • C) Incorreta: O tempo verbal "fora preciso" (pretérito mais-que-perfeito) seria a transformação de "foi preciso" (pretérito perfeito), e não de "é preciso" (presente). O pronome "minha" também está incorreto.
  • (D) Correta: Esta alternativa aplica corretamente todas as regras. "disse que" introduz o discurso indireto. "era preciso" é a transformação correta de "é preciso" (presente para pretérito imperfeito, já que o verbo introdutório "disse" está no passado). "sua alma" é a mudança correta do pronome possessivo.
  • E) Incorreta: Esta é a armadilha da banca. Embora o pronome "sua" e a introdução "disse que" estejam corretos, o tempo verbal "é preciso" (presente) não foi alterado. Quando o verbo que introduz o discurso indireto está no passado ("disse"), o verbo da frase reportada (que estava no presente) deve ser ajustado para um tempo verbal passado correspondente (neste caso, o pretérito imperfeito "era"). Manter o presente é um erro comum.

Fonte: FCC TRT18 2022 Conhecimentos Comuns (Técnico - Área Administrativa) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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